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Beatriz estava sentada no barracão, os pés apoiados em um caixote velho enquanto girava distraidamente uma chave entre os dedos. Wilbeth estava ao seu lado, ajustando a mira de Berenice, sua fiel espingarda, enquanto ouvia de fundo o barulho dos rádios chiando em algum canto do barraco. A luz fraca do fim de tarde entrava pelas frestas das tábuas, criando sombras compridas no chão de cimento.

O telefone dela vibrou no bolso da calça. Quando puxou para ver quem era, um pequeno sorriso surgiu em seus lábios ao ver o nome de Elena na tela. Ela atendeu rapidamente, colocando o telefone no ouvido.

— Fala, Elena! — disse, tentando manter um tom despreocupado, mas já sentindo a curiosidade crescer.

— Beatriz! — A voz de Elena soou levemente ofegante do outro lado da linha. — Menina, eu tô te ligando pra dizer que esse bebê tá quase chegando. Acho que falta pouco, viu?

Beatriz arregalou os olhos, se ajeitando na cadeira. Wilbeth, que ouvia a conversa de relance, parou o que estava fazendo e levantou a sobrancelha, interessado.

— Sério? Tá sentindo as contrações já? — Beatriz perguntou, sua voz carregada de surpresa e animação.

— Ainda não tão regulares, mas tô sentindo umas dores estranhas, e meu médico disse que é sinal de que tá perto. Ai, amiga, tô começando a ficar nervosa… — Elena confessou, soltando um suspiro do outro lado da linha.

Beatriz soltou uma risada curta.

— Relaxa, mulher!Se tem alguém preparada pra isso, é você!

Elena riu baixinho.

— Saber a teoria é fácil, quero ver na prática! Mas e você, como tá? Wilbeth tá aí contigo?

Beatriz olhou para ele de canto de olho e balançou a cabeça com um sorriso.

— Tá sim. Mexendo na arma dele como se fosse um brinquedo de criança. — Ela fez uma careta, e Wilbeth apenas riu, dando de ombros.

— Diz pra ele que eu quero ver a cara dele quando esse bebê nascer! Quero ver se ele vai segurar a emoção ou se vai desmaiar.

Beatriz colocou o telefone no viva-voz.

— Repete aí, Elena.

— Wilbeth, quero ver sua cara quando esse bebê nascer! Acha que vai segurar a emoção ou vai cair duro no chão?

Wilbeth soltou uma risada, cruzando os braços.

— Eu? Desmaiar? Nunca! Mas não prometo que não vou chorar.

Beatriz gargalhou.

— Ah, isso eu quero ver!

Elena riu junto, mas sua voz ainda carregava um certo nervosismo.

— Mas sério, gente… Tá chegando mesmo. Eu tô meio apavorada, mas feliz. Esse bebê vai mudar tudo.

Beatriz respirou fundo, sentindo uma pontada de algo que ela não sabia exatamente nomear. Um sentimento estranho, entre empolgação e receio.

— Vai mudar, sim. Mas pra melhor, Elena. Você tem todo mundo aqui contigo. Não tá sozinha nessa.

Elena ficou em silêncio por um segundo, como se absorvesse aquelas palavras.

— Valeu, Bia. Você é demais.

Beatriz sorriu.

— Eu sei. Agora vai descansar, mulher! Guarda energia pra quando esse bebê resolver dar as caras.

— Tá bom, tá bom. Beijo pros dois.

— Beijo, Elena.

Beatriz desligou o telefone e suspirou, apoiando os braços nos joelhos. Wilbeth a observou por um momento antes de falar.

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