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Após o desabafo e as lágrimas, o cansaço de ambos os envolvia como um cobertor pesado, mas não opressor. Radinho e Beatriz estavam no sofá, um tanto desalinhados, mas com os corações mais leves. Ela ainda estava apoiada nele, agora com a cabeça encostada em seu peito, ouvindo o ritmo constante e tranquilizador de seu coração.

Radinho mexia suavemente nos cabelos dela, os dedos deslizando entre os fios com um cuidado quase reverente. Ele sentia o peso de tudo o que tinham passado juntos, mas ali, naquele momento, nada parecia importar além de terem um ao outro.

— Tá sentindo isso? — ele perguntou, interrompendo o silêncio confortável.

Beatriz ergueu levemente a cabeça para olhá-lo, confusa. — O quê?

Ele sorriu de lado, os olhos brilhando com algo entre ternura e travessura. — Meu coração. Batendo forte. Ele faz isso toda vez que você tá perto.

Ela revirou os olhos, mas um sorriso involuntário escapou. — Isso foi cafona.

— Foi sincero — ele retrucou, apertando-a levemente contra si, como se quisesse mantê-la ali para sempre.

Beatriz suspirou, seu rosto se suavizando. — Eu quase esqueci como era isso. Como era estar assim com você.

Radinho levantou o queixo dela com o polegar, obrigando-a a olhá-lo nos olhos. — Então não esquece mais. Não importa o que aconteça lá fora, aqui é o nosso mundo, Beatriz. A gente pode começar de novo, sabe?

Ela sentiu os olhos marejarem novamente, mas dessa vez não era por dor ou arrependimento. Era esperança. Ela assentiu lentamente, uma lágrima solitária escorrendo por sua bochecha.

Radinho inclinou-se e, com a ponta dos dedos, enxugou a lágrima antes de depositar um beijo suave na testa dela. — Vem cá.

Ele se levantou, segurando sua mão, e a levou até a cozinha. Beatriz, confusa, o seguiu.

— O que você tá aprontando agora? — perguntou, cruzando os braços, mas com um sorriso pequeno no rosto.

Radinho abriu uma gaveta e tirou uma vela simples, acendendo-a com um fósforo. Ele colocou a vela sobre a mesa e apagou as luzes, deixando o ambiente iluminado apenas pela chama tremeluzente.

— Jantar à luz de velas? — ela riu, surpresa. — Isso é coisa de filme, Radinho.

Ele deu de ombros, abrindo a geladeira e pegando o que tinha: um pedaço de pão velho, um pouco de queijo e uma garrafa de suco. — É o melhor que dá pra fazer. Não é Paris, mas... — Ele fez um gesto exagerado, indicando a mesa com as mãos. — Madame.

Beatriz riu alto, algo que não fazia há tempos, e sentou-se na cadeira, cruzando as pernas. — Você é impossível.

— E você é impossível de resistir — ele respondeu, piscando para ela enquanto colocava a comida na mesa.

Os dois comeram rindo e conversando sobre coisas banais, como se o peso do mundo tivesse ficado do lado de fora daquela cozinha. Cada sorriso de Beatriz fazia o coração de Radinho disparar, e cada piada boba dele fazia as bochechas dela corarem.

Quando terminaram, Radinho se levantou, estendendo a mão para ela. — Posso te convidar pra uma dança?

Beatriz ergueu uma sobrancelha. — Sem música?

Ele deu um sorriso largo, puxando-a para si. — A música tá aqui, ó. — Ele apontou para o peito dele.

Ela revirou os olhos, mas deixou-se levar, apoiando as mãos nos ombros dele enquanto ele envolvia sua cintura. Eles começaram a balançar levemente de um lado para o outro, sem nenhuma melodia além do som das respirações sincronizadas.

IMPUROS-Radinho Onde histórias criam vida. Descubra agora