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Era início da noite no barracão improvisado que servia de base para os negócios de Wilbeth. Radinho estava encostado em uma parede de tijolos expostos, mexendo em uma tv velha enquanto soltava um assobio baixo. Wilbeth estava sentado em uma cadeira de plástico, limpando calmamente sua fiel "Berenice". O ambiente estava mais tranquilo do que o habitual, mas ambos sabiam que isso não duraria muito.

De repente, o som de passos pesados ecoou pelo espaço, seguido de uma voz formal e controlada.

— Boa noite.— disse Burgos, entrando com a maleta preta em mãos, o terno levemente amassado, mas sua postura intacta. Ele olhou ao redor, franzindo a testa ao perceber a desordem do lugar. — Eu esperava que aqui estivesse mais... organizado.

Radinho deu uma risada sarcástica, ainda olhando para o celular.

— Ih, olha aí, o doutorzinho tá na área. Veio resolver mais rolo? Ou só veio pagar de patrão? — zombou, sem sequer levantar o olhar.

Wilbeth apenas balançou a cabeça, colocando o fuzil de lado e cruzando os braços.

— Fala logo, Burgos. Não tenho paciência pra formalidade agora, não. Tá aqui pra quê? — disse, com um tom direto e carregado de sotaque.

Burgos soltou um suspiro profundo, colocou a maleta sobre uma mesa improvisada e começou a abrir, exibindo uma série de documentos.

— Estou aqui para esclarecer a situação. Pelo visto, vocês ainda não entenderam o que realmente está acontecendo com Beatriz.

Ao ouvir o nome dela, Wilbeth estreitou os olhos e inclinou-se para frente.

— Ela tomou um tiro, burguesinho. Mas o que tem a minha menina?

— É doutor Burgos, por favor — corrigiu Burgos, mas logo levantou as mãos em rendição ao perceber os olhares impacientes dos dois. — A questão é a seguinte: Beatriz foi usada como uma peça-chave por Roberto. Conseguir contradizer a palavra dela por causa de um problema mental,isso fez com que a polícia ficasse... perseguindo ela.

Radinho finalmente largou a TV, franzindo o cenho.

— E o que isso tem a ver com o fato de ela tá na merda? Não enrola, doutor.

Burgos ajeitou os óculos com calma, ignorando o tom provocativo.

— Roberto deve ter denunciado em que hospital a Beatriz estava pro morello,que em menos de...3 horas no máximo. O hospital estava completamente cercado por viaturas.

— Peraí, peraí... — interrompeu Wilbeth, batendo a mão na mesa. — Tu tá me dizendo que aquele desgraçado... aquele cara que dizia ser o pai dela... vendeu a menina pra polícia?!

— Em termos simplificados, sim. — Burgos abriu outro documento e apontou. — A sentença dela de Beatriz será reduzida. Apenas pelo fato de quê Roberto havia falado que vocês tinham manipulado ela.

Radinho bateu a mão contra a parede, frustrado.

— Caraca, a mina já passou por tanta merda, e o tal do Roberto ainda quis ferrar mais ela?! Tá de sacanagem, né?

Wilbeth esfregou as têmporas, tentando absorver as informações.

— Tá. E qual é o próximo passo? Porque eu não vou deixar ninguém mexer com ela de novo, ouviu? Se aquele Morello ou o tal do Roberto se meterem no nosso caminho, vai ser bala, porra.

Burgos levantou as mãos em um gesto conciliatório.

— Preciso da cooperação de vocês,senão não vou conseguir fazer nada. Principalmente se forem pra cima da polícia.

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