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Beatriz saiu do banheiro ainda enrolada na toalha, com o cabelo molhado escorrendo pelas costas, quando ouviu a porta da sala se abrir e passos apressados ecoarem pela casa. Antes que pudesse processar, viu Radinho entrando. Ele parecia exausto, com olheiras profundas e o rosto marcado de tensão, mas ainda assim abriu um sorriso largo ao vê-la.

— Beatriz! — ele gritou com a voz rouca, largando a mochila e o fuzil que carregava no canto. Sem hesitar, correu até ela, ignorando qualquer constrangimento por ela ainda estar desarrumada.

Beatriz nem teve tempo de reagir. Ele a envolveu em um abraço apertado, quase a levantando do chão. A toalha quase escorregou, mas naquele momento ela não se importou. Ela sentiu os braços dele ao seu redor, como se ele estivesse desesperado para se certificar de que ela realmente estava ali, segura. O calor do abraço aqueceu algo dentro dela que estava quebrado há muito tempo.

— Eu achei que nunca mais ia te ver! — Radinho confessou, com a voz embargada, enquanto a segurava com força. — A gente achou que tinha te perdido, que você... que você não ia voltar nunca mais.

Beatriz sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Ela queria dizer algo, qualquer coisa, mas as palavras não vinham. Apenas retribuiu o abraço, pressionando o rosto contra o ombro dele.

— Radinho... eu tô aqui. — A voz dela saiu num sussurro.

Ele a soltou um pouco, mas apenas o suficiente para encará-la. Seus olhos estavam marejados, e ele parecia lutar para conter as emoções. Então, de repente, deu um sorriso forçado, tentando aliviar o momento.

— Você tem ideia do quanto o Wilbeth tá um caos por sua causa? E eu também, viu? — Ele riu, mas sua voz falhou.

— Desculpa. — Ela mordeu o lábio, sentindo a culpa pesar no peito. — Eu não queria ter saído assim... Mas eu não tinha escolha.

— Não importa agora. Você tá aqui, e é isso que importa. — Ele a puxou de volta para outro abraço rápido, como se quisesse garantir que ela não fosse desaparecer de novo.

Depois de alguns instantes, Wilbeth apareceu na porta, com uma expressão curiosa e satisfeita ao ver os dois juntos. Ele cruzou os braços e apoiou o ombro no batente, observando a cena.

— Eu sabia que o moleque ia correr pra você assim que entrasse. — Wilbeth brincou, mas o tom era gentil. — Não dá pra competir com vocês dois.

Beatriz deu uma risadinha baixa, ainda se sentindo confortada pelos braços de Radinho. Ela sabia que a luta estava longe de terminar, que o peso do passado ainda estava sobre ela, mas, naquele momento, com Wilbeth ali e Radinho ao seu lado, sentiu-se em casa novamente.

Beatriz e Radinho foram para o quarto em silêncio. A tensão parecia pairar no ar, mas assim que entraram, o ambiente mudou. Enquanto Radinho encostava na parede, observando-a com um olhar atento, ela começou a vasculhar o guarda-roupa à procura de roupas. Pegou uma calça jeans surrada e uma camiseta branca básica.

Enquanto trocava de roupa, ainda de costas para ele, Beatriz começou a falar, sua voz vacilando de leve.

— Eu tenho pensado... sobre a minha mãe.

Radinho ergueu uma sobrancelha, curioso, mas não disse nada. Ele sabia que Beatriz tinha suas próprias formas de processar os pensamentos.

— Ela se separou do Roberto, sabe? Antes de tudo isso. Antes de eu virar... isso aqui. — Beatriz gesticulou em direção a si mesma, um sorriso amargo no rosto. — Eu queria encontrar ela.

Radinho finalmente se aproximou, cruzando os braços. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, digerindo as palavras dela, antes de perguntar:

— E por que agora?

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