Não vou considerar isso um capítulo

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Um mês após a morte de Radinho, o Dendê parecia envolto em uma névoa de luto, mas nenhum sofrimento era tão palpável quanto o de Beatriz. Ela estava irreconhecível, consumida pela dor. O sorriso que antes aparecia em raros momentos agora parecia uma memória distante. Cada dia era uma batalha para simplesmente continuar respirando.

Beatriz não conseguia lidar com a ausência de Radinho. Ela acordava no meio da noite gritando o nome dele, lágrimas escorrendo sem controle. Durante o dia, ela passava horas olhando para a janela, como se esperasse que ele surgisse de algum canto da comunidade, com o sorriso travesso que ela conhecia tão bem. Mas ele nunca aparecia.

Ela se recusava a comer, o cheiro de comida a enojava. Quando Wilbeth insistia para que ela comesse algo, ela explodia, gritando que nada importava mais. “Por que você não foi no lugar dele?”, ela chegou a dizer uma vez, a voz cheia de dor e arrependimento, antes de correr para o quarto e trancar a porta.

Dentro do quarto, Beatriz era um turbilhão. Ela chorava até perder o fôlego, arrancava folhas de cadernos que usava para escrever cartas que nunca seriam lidas, jogava objetos contra a parede e se abraçava em posição fetal no chão frio. Cada lembrança de Radinho era uma faca enfiada no peito: o som da risada dele, as conversas que tinham até tarde da noite, os pequenos gestos que ele fazia para demonstrar carinho.

Wilbeth também sofria, mas sua maior dor era ver Beatriz se desfazendo diante dele. Ele tentava alcançá-la, mas ela o afastava com palavras duras ou com silêncio absoluto. Algumas vezes, ele simplesmente se sentava do lado de fora da porta do quarto dela, esperando que ela quisesse falar. Mas Beatriz raramente abria a porta.

Quando ela finalmente saía, era um espectro do que havia sido. A roupa larga, o cabelo desarrumado e o olhar perdido faziam com que até os garotos da comunidade, acostumados com o sofrimento, evitassem encará-la. Wilbeth tentava ser paciente, mas sentia que estava falhando como pai. Ele se culpava: "Se eu tivesse protegido ele, talvez ela não estivesse assim", pensava, enquanto fumava cigarros intermináveis na varanda.

A comunidade também sentia a perda, mas ninguém parecia entender o quanto Beatriz estava quebrada. Para eles, Radinho era mais uma vítima da guerra, mas para Beatriz, ele era tudo. Passar pelas ruas onde ele costumava estar era insuportável. Os lugares que antes eram preenchidos pelo som de sua voz agora pareciam assombrados.

Em um dia particularmente difícil, ela viu o beco onde Radinho e Foguinho costumavam ficar jogando conversa fora. Sem pensar, caiu de joelhos no chão, soluçando, o corpo inteiro tremendo. Foguinho, que a viu de longe, correu até ela e tentou consolar.

Ela começou a se isolar ainda mais, recusando-se a ver ou falar com quem quer que fosse. Em noites de insônia, se sentava no canto do quarto e balançava o corpo para frente e para trás, sussurrando o nome de Radinho como se isso pudesse trazê-lo de volta. Às vezes, imaginava o rosto dele em sonhos, mas sempre acordava chorando ao perceber que ele não estava mais ali.

Wilbeth sabia que precisava fazer algo antes que Beatriz se destruísse completamente. Em um dia de sol, ele entrou no quarto dela e a pegou pelos ombros, obrigando-a a encará-lo. "Eu perdi ele também, filha. Mas eu não posso perder você. Não vou. Não importa o que você sinta, o que você ache que fez, eu estou aqui. E vou continuar aqui."

Aquelas palavras abriram uma pequena rachadura na armadura de dor que Beatriz havia construído. Ela começou a chorar compulsivamente, caindo nos braços de Wilbeth. Ele a segurou firme, como se estivesse tentando juntar os pedaços dela, enquanto as lágrimas corriam silenciosas pelo rosto dele também.

Nos dias seguintes, Wilbeth começou a insistir mais para que Beatriz saísse de casa, mesmo que fosse só para sentar na varanda com ele. Ela ainda estava muito longe de estar bem, mas, aos poucos, começou a responder às tentativas dele de fazê-la rir. Foguinho também passou a aparecer com mais frequência, compartilhando histórias de Radinho que, mesmo dolorosas, traziam um leve consolo.

Beatriz ainda sofria. Ela ainda acordava no meio da noite gritando, ainda tinha crises de choro incontroláveis, mas havia algo novo: uma faísca, ainda pequena, de que talvez ela pudesse continuar. Não por ela mesma, mas por Radinho. E isso, por ora, era o suficiente para manter Beatriz de pé, mesmo que cambaleando.

Beatriz sabia que a noite seria longa. A ausência de Wilbeth deixava a casa em um silêncio perturbador. Ela andava pelos cômodos, os pés descalços tocando o chão frio enquanto tentava ocupar a mente.

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Eu sei que tá muito curto,Mas é apenas para mostrar o sofrimento de Beatriz porque sinceramente não tenho muitas ideias em minha mente pra conseguir fazer um capítulo incrível.
Mas prometo que o próximo vai ser longo e melhor.

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