Wilbeth ficou sentado à mesa, os olhos marejados, encarando o telefone como se estivesse pesando cada consequência do que ia fazer. Respirou fundo, apertando o celular nas mãos, lembrando-se de cada segundo daquele momento com Beatriz - o abraço dela, a palavra "pai" que escapou de seus lábios, o olhar emocionado. Sabia que não era só a herança em jogo, mas também o futuro daquela menina que ele passou a ver como filha.
Depois de um longo suspiro, ele apertou o botão de discagem, ligando para Evandro. O som da chamada ecoava pela casa vazia, e seu coração acelerava a cada segundo, lembrando-se de tudo que aquele plano representava, de tudo que ele poderia perder e do quanto desejava proteger Beatriz, mesmo que isso significasse ir contra o próprio Evandro.
A chamada conectou, e uma voz do outro lado atendeu de forma indiferente. Wilbeth engoliu seco, preparando-se para a conversa que sabia ser uma das mais difíceis de sua vida.
- Evandro... precisamos conversar.
Wilbeth respirou fundo, tentando manter a calma, e começou a falar, com um tom sério e respeitoso.
- Chefe... olha só, eu sei que tu quer resolver o lance da herança, eu sei de tudo. Mas vou ser bem direto, parceiro: essa menina é como se fosse minha filha, tá ligado? Ela não tem nada a ver com os rolos do pai dela. Não dá pra deixar ela fora disso, não? É muito nova, não merece carregar essa bronca, chefe...
Do outro lado, Evandro respondeu, a voz soando com impaciência.
- Wilbeth, para de enrolar e fala logo. Tá falando da garota? Tu que devia ter tido a consciência de não se apegar tanto a ela. Tu sabia desde o começo que isso era negócio, porra. A gente fechou o plano, e tu aceitou de boa.
Wilbeth suspirou, tentando insistir, mas sentindo o peso da tensão na voz de Evandro.
- Chefe... eu sei. Eu sei que topei, mas o bagulho é o seguinte: a mina me chamou de pai, tá ligado? Eu fiz o que fiz, segurei a onda esse tempo todo, mas... ela virou família, mano. Olha, me dá só mais uma chance. Vamos pegar o pai dela, o verdadeiro. A mina não sabe de nada, não tem que carregar culpa de marmanjo irresponsável. E aí, chefe, vamos fazer isso direito, na moral.
Evandro bufou, já elevando o tom de voz, irritado.
- Wilbeth, tu tá me tirando? Ta apaixonadinho pela menina! A gente tinha tudo acertado, e agora tu vem com papinho de pai? Se coloca no lugar certo, parceiro! Se tu tivesse segurado o coração, ela era só parte do plano. Eu não quero saber de desculpa, é herança que eu quero e é isso.
Wilbeth engoliu a seco, sentindo o aperto no peito. Mas continuou, a voz dele saindo quase como uma súplica, mas ainda chamando Evandro de chefe com todo o respeito.
- Chefe, escuta... deixa a Beatriz em paz, parceiro. Vai atrás do pai dela, ele sim tem que pagar a dívida. Ela só tá tentando viver a vida dela, fazer as coisas dela, não sabe de nada. Me escuta só dessa vez, vai. Eu imploro, chefe.
Houve uma pausa. Wilbeth ouvia a respiração pesada de Evandro, e sentia a tensão crescer na linha.
- Já deu, Wilbeth. Já era pra ter resolvido isso faz tempo, e agora tu vem implorar por uma garota? Cê tá me tirando. Última vez que eu vou falar, fica na linha ou sai do meu caminho, senão tu e ela rodam junto, entendeu?
Evandro respirou fundo antes de responder, o tom firme e intransigente.
- Olha só, Wilbeth... assim que tiver condições, volta a ser a frente do Dendê. Preciso de gente que não perde o foco, e se não conseguir botar essa situação em ordem, nem se dá ao trabalho. Essa parada de pai e filha é coisa da tua cabeça, irmão. A menina não é tua filha, para de alimentar essa história.
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IMPUROS-Radinho
Fiksi PenggemarAs vezes mudar e foda. mas sempre tem seus pontos positivos e principalmente pontos negativos.
