Wilbeth encarava Radinho por longos segundos, com o fuzil firme nas mãos. A tensão no ar era palpável, e até os sons distantes do Dendê pareciam abafados pela situação entre eles. Radinho, sempre com aquele tom de desafio, mantinha a postura, mas os olhos não escondiam o desconforto.
— Cê tá falando sério, Radinho? — Wilbeth finalmente disse, com a voz baixa, mas cheia de peso. — Tu quer que eu atire em você? Que eu faça isso pra um plano que, se der errado, cê sabe que morre mesmo, né?
Radinho respirou fundo, passando a mão pelo boné enquanto tentava manter a calma.
— É isso, chefe. Não tem outro jeito. Roberto tá na cola, ele confia em mim, mas a confiança só vai durar até ele achar que eu não tô do lado dele. Se eu aparecer baleado, falando que fui atacado, ele vai engolir a história. Enquanto isso, você pega ele por trás. É agora ou nunca, porra.
Wilbeth deu uma risada seca, sem humor, e balançou a cabeça.
— Tu tá ligado que eu sempre quis te dar um tiro, né? — Ele ergueu a arma, apontando direto para Radinho. — Desde aquele dia que ouvi sua voz fudendo a Beatriz.
O comentário pegou Radinho de surpresa. Os olhos dele arregalaram-se, e ele deu um passo para trás, quase tropeçando.
— Quê? Tá de brincadeira, Wil! Isso não tem nada a ver com a conversa aqui, porra! — Ele tentou manter a compostura, mas a surpresa era evidente.
Wilbeth inclinou a cabeça, o sorriso sarcástico nunca saindo do rosto.
— Não tem nada a ver? Cê achou mesmo que eu ia esquecer, moleque? Escutar minha filha naquela situação com um pivete que só traz problema? Foi na base do autocontrole que eu não te cacei naquele dia. — A arma permaneceu fixa no alvo. — Agora, olha só. Cê tá me pedindo pra atirar em você? É quase poético.
Radinho levantou as mãos, tentando mostrar que não era momento para piadas ou ressentimentos.
— Wil, calma aí! É só no braço ou na perna, caralho! Não vai me matar por uma coisa dessas. A gente tem coisa maior pra resolver, lembra? Roberto, o Dendê... — Ele engoliu em seco, olhando para o cano da arma. — Vamo lá, faz isso logo. E tenta não errar, tá?
Wilbeth suspirou profundamente, abaixando o olhar por um segundo antes de fixá-lo novamente em Radinho.
— Relaxa, moleque. Eu não erro.
E então, o tiro ecoou pelo ambiente. Radinho gritou, segurando o braço onde a bala havia acertado. Ele caiu de joelhos, rangendo os dentes enquanto olhava para Wilbeth.
— Porra, Wil!
Wilbeth deu de ombros, guardando o fuzil.
— Você pediu. Tá feito. Agora, vai lá e faz seu teatro. Só não me decepciona, moleque. — Ele estendeu a mão para ajudar Radinho a se levantar. — E lembra... Se der ruim, eu vou terminar o serviço.
Radinho pegou a mão, levantando-se com dificuldade. Ele ainda sorria, mesmo com a dor.
— Relaxa, chefe. Eu volto. Mas você devia mesmo era tirar esse rancor do peito, hein? Faz mal pra saúde.
Wilbeth bufou, sem responder, enquanto observava Radinho sair cambaleando. Atrás dele, o plano já começava a se desenrolar, mas a tensão entre eles permanecia como uma sombra.
Radinho chegava até Roberto no baixo do moro, mancando e segurando o braço com força. A camisa dele estava ensanguentada, mas ele mantinha uma expressão de dor misturada com determinação. Os olhos de Roberto logo se fixaram no ferimento, arregalando-se por um momento antes de escurecerem em pura raiva. Ele não esperou nem dois segundos antes de começar a berrar.
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IMPUROS-Radinho
FanfictionAs vezes mudar e foda. mas sempre tem seus pontos positivos e principalmente pontos negativos.
