Wilbeth ficou ali, parado, a respiração pesada enquanto as palavras dela ecoavam pela cozinha como facadas. Ele tentou manter a expressão firme, mas algo dentro dele parecia ter quebrado. As mãos tremiam levemente, e ele as cruzou contra o peito, tentando conter a onda de emoções que ameaçava transbordar. Quando finalmente falou, sua voz saiu mais rouca e baixa do que ele esperava.
- Você não sabe o que tá falando, Beatriz. - Ele deu um passo à frente, os olhos presos nela, carregados de algo entre raiva e dor. - Você tá aí despejando tudo isso, como se eu não tivesse segurado um monte de merda pra te proteger. Como se eu não tivesse enfrentado o inferno por sua causa.
Ela tentou interromper, mas ele levantou a mão, exigindo o silêncio dela.
- Não. Agora você escuta. Eu te ouvi até agora, Beatriz. Então você vai me ouvir também.
Ele respirou fundo, tentando organizar os pensamentos, mas a raiva ainda tingia cada palavra.
- Eu sei que eu menti. Sei que eu não fui o melhor cara. Mas sabe o que me dói mais? É que, mesmo depois de tudo que a gente passou, mesmo depois de eu ter feito de tudo pra ser o pai que você nunca teve, você ainda chamou aquele desgraçado de "pai". - A última palavra saiu como um soco, carregada de rancor. - Ele não era seu pai, Beatriz. Ele era um monstro. O mesmo monstro que te vendeu, que te atirou. E você teve coragem de olhar pra ele morto e chamar ele de "pai".
A dor no rosto dele era evidente agora, as palavras se tornando mais difíceis de sair.
- Eu sei que ele te criou. Sei que, de alguma forma doente, você ainda tinha alguma coisa por ele. Mas você não faz ideia do que isso significou pra mim. Escutar isso... saber que, mesmo depois de tudo, você ainda tinha espaço pra ele no coração, mas não tinha pra mim.
Ele passou a mão pelo rosto, tentando afastar as lágrimas que começavam a se formar, mas não conseguiu.
- Você acha que foi fácil pra mim? Você acha que eu não sei o que você passou? Eu sei, Beatriz. Eu tava lá, eu vi. Mas você nunca parou pra pensar no que eu passei? No que eu tive que fazer pra te manter viva? Eu larguei minha vida inteira por você. Eu enfrentei polícia, tráfico, meus próprios demônios... tudo pra te proteger. E sabe o que eu ganhei em troca? Um monte de mentiras e... e você defendendo o cara que te destruiu.
Ele balançou a cabeça, a raiva começando a dar lugar à dor.
- Eu só queria ser o pai que você merecia, Beatriz. Só isso. Mas parece que eu nunca fui suficiente pra você.
O silêncio caiu novamente entre eles, mas dessa vez era diferente. Era um silêncio pesado, carregado de mágoas e sentimentos não ditos. Wilbeth deu um passo para trás, como se precisasse de espaço, e a encarou com os olhos vermelhos.
- Eu te amo, Beatriz. Amo mais do que tudo nesse mundo. E é por isso que dói tanto. Dói porque eu não sei mais o que fazer pra ser o que você precisa.
Ele respirou fundo, tentando se recompor, mas sua voz ainda tremia.
- Mas se isso não é suficiente... se eu não sou suficiente... então me diz agora, porque eu não aguento mais essa dúvida.
Wilbeth ficou ali, esperando, a respiração pesada, o olhar fixo nela, esperando uma resposta que ele temia ouvir.
Beatriz olhou para Wilbeth, o peito subindo e descendo rápido enquanto ela tentava organizar a confusão de pensamentos. O peso das palavras dele ainda ecoava, mas, em vez de desabar, ela apenas soltou um suspiro pesado e cruzou os braços.
- Sabe de uma coisa, Wilbeth? - Ela começou, o tom exausto, mas com uma leve pitada de sarcasmo. - A gente é um bando de idiotas.
Wilbeth franziu o cenho, a expressão de dor e raiva sendo substituída por confusão.
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IMPUROS-Radinho
FanfictionAs vezes mudar e foda. mas sempre tem seus pontos positivos e principalmente pontos negativos.
