Quarenta e seis

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Jisung estava sentado na beira da cama do hospital, o olhar perdido na janela enquanto processava a realidade de estar voltando para casa. A ideia de pisar no apartamento que dividiu com Felix por um ano parecia sufocante, algo para o qual ele não se sentia totalmente preparado. Apesar da mágoa, Jisung também sentia uma estranha leveza, como se, finalmente, tivesse se livrado de um peso invisível.

Ele suspirou, perdido nos próprios pensamentos, quando ouviu uma voz familiar chamando seu nome.

— Jisung? — Minho entrou no quarto, os olhos gentis, mas atentos. — Está tudo bem?

Jisung piscou, voltando ao presente e encarando Minho. Ele forçou um sorriso, tentando parecer mais forte do que realmente se sentia.

— Sim, só... pensando, eu acho.

Minho deu um leve aceno de cabeça, como se compreendesse, e caminhou até a cama, estendendo a mão para ajudá-lo a se levantar.

— Vamos? O médico disse que você está liberado. Vou te levar para casa.

Jisung hesitou, olhando para a mão estendida, e depois para Minho. Ele pegou a mão dele e se levantou, mas não pôde evitar o sentimento de angústia ao pensar em voltar para o apartamento.

— Minho... eu não sei se estou pronto pra voltar lá, sabe? — Jisung confessou em um tom quase sussurrado, os olhos abaixados.

Minho inclinou a cabeça, atento ao que Jisung dizia.

— Eu entendo. — Ele respondeu, colocando uma mão no ombro de Jisung de forma reconfortante. — Não tem problema, Jisung. Podemos ir para um hotel, ou para minha casa, se você preferir. Não precisa forçar nada que ainda não está preparado.

Jisung relaxou um pouco, aliviado pela compreensão de Minho. Ele deu um leve sorriso, com os olhos um pouco marejados.

— Obrigado, Minho. Eu acho... que talvez seja melhor ir para a sua casa por uns dias. Só até eu me sentir mais forte.

Minho assentiu, o sorriso suave e encorajador.

— Claro, você é sempre bem-vindo. — Ele disse com um tom que trazia uma mistura de amizade e carinho. — Vamos pegar suas coisas e sair daqui. Hoje você merece descansar de tudo.

Jisung sorriu, e eles começaram a recolher as poucas coisas que ele tinha no quarto. Minho se manteve ao seu lado, oferecendo um apoio constante e silencioso, sem pressa, respeitando o tempo de Jisung.

No caminho para o carro, Jisung sentia uma sensação estranha de paz. Ele se lembrou do relacionamento com Felix, de como se esforçava para agradá-lo, para que se sentisse especial ao lado dele. Mas agora, pela primeira vez, Jisung percebeu que talvez nunca tivesse sido realmente livre.

Enquanto se acomodava no carro, ele olhou para Minho e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que estava exatamente onde deveria estar.

...

Na cozinha de Minho, o ambiente estava silencioso, exceto pelo som suave das panelas enquanto ele preparava uma refeição simples. Jisung o observava, sentado à mesa, sentindo-se, pela primeira vez em dias, realmente em paz. A presença tranquila de Minho o fazia relaxar, e ele se pegou apenas apreciando o cuidado que o outro tinha com cada detalhe.

Quando finalmente a comida ficou pronta, Minho serviu os pratos e se sentou em frente a Jisung. Por alguns minutos, eles comeram em silêncio, mas a calma entre eles era confortável, quase como se palavras fossem desnecessárias.

Após algumas garfadas, Jisung quebrou o silêncio, sua voz suave e cheia de gratidão:

— Obrigado... por estar ao meu lado. — Ele olhou para Minho, os olhos mostrando um misto de cansaço e sinceridade. — De verdade, Minho. Não sei o que faria sem você.

Minho ergueu os olhos e sorriu, um sorriso gentil que fez o peito de Jisung se aquecer.

— Você sabe que não precisa agradecer, Jisung. — Ele respondeu, em um tom calmo e honesto. — Estar aqui é o mínimo que posso fazer. Você merece alguém que cuide de você.

Jisung desviou o olhar, uma leve tristeza surgindo em seu rosto enquanto brincava com o garfo no prato. O pensamento que ele tentava evitar o dia todo finalmente escapou.

— Minho... — Ele começou, respirando fundo antes de continuar. — Felix está com Hyunjin, não é?

Minho fez um breve aceno afirmativo, um pouco hesitante, como se não quisesse ver Jisung se machucar mais com aquela confirmação.

— Sim, eles estão juntos. — Minho respondeu em um tom cuidadoso.

Jisung suspirou, como se a confirmação fosse algo que ele já esperava, mas ainda assim doía ouvir. Ele abaixou o olhar para o prato, um pequeno sorriso triste se formando em seus lábios.

— Eu já imaginava... — Jisung murmurou. — Eles sempre tiveram essa conexão, mesmo quando estávamos juntos.

Minho observou Jisung atentamente, vendo a mistura de sentimentos que ele tentava esconder. Ele se inclinou um pouco para frente, em um gesto reconfortante.

— Sabe, Jisung... às vezes, algumas pessoas aparecem em nossas vidas para nos ensinar algo. Talvez o Felix tenha sido essa pessoa para você, mas isso não significa que você não mereça mais. Que não mereça alguém que te ame por completo.

Jisung ergueu os olhos, encontrando o olhar acolhedor de Minho. A sinceridade nas palavras de Minho fez seu peito se apertar, e ele sentiu uma pequena fagulha de esperança surgindo.

— Obrigado, Minho. — Ele disse, a voz quase falhando. — Às vezes, eu me pergunto se eu algum dia vou encontrar isso... alguém que realmente me ame, sem precisar de mais ninguém.

Minho segurou a mão de Jisung sobre a mesa, o olhar firme e determinado.

— Às vezes... você só precisa olhar com mais calma ao seu redor.

Jisung ergueu os olhos para os de Minho. Talvez ele realmente precisasse olhar com mais calma.

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