Quarenta e oito

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Mais tarde naquela noite, com o clima descontraído da sessão de filmes já passado, Felix se virou para Hyunjin, seu olhar hesitante mas decidido. Ele lembrava de algo que há muito tempo pairava em sua mente, um ponto de interrogação que nunca teve coragem de mencionar com profundidade. Respirando fundo, ele finalmente quebrou o silêncio, sua voz baixa e cautelosa.

— Hyunjin... posso te perguntar algo sobre o seu pai? — Felix disse, olhando diretamente para o marido, que estava sentado na beirada da cama.

Hyunjin pareceu surpreendido com a pergunta e ficou em silêncio por um momento, os olhos fugindo dos de Felix. Mas então, ele assentiu lentamente, como se finalmente estivesse pronto para falar sobre algo que o perturbava há anos.

— Claro... pergunta o que você quiser. — respondeu ele, a voz com um tom de resignação, como se soubesse que esse assunto viria eventualmente.

— Eu lembro quando ele morreu... — Felix começou, escolhendo cuidadosamente as palavras. — Foi tudo muito repentino, um infarto, não foi? Mas eu sempre achei estranho. Não parecia... natural.

Hyunjin suspirou, os ombros tencionando ao ouvir a lembrança. Ele sabia que Felix era perspicaz, mas não esperava que ele guardasse tantas suspeitas.

— Foi um infarto, sim... pelo menos foi o que disseram. — Ele desviou o olhar, fitando o chão enquanto reunia coragem para continuar. — Mas, pouco antes disso, meu pai... descobriu algumas coisas.

Felix franziu as sobrancelhas, inclinando-se para mais perto.

— Que tipo de coisas?

Hyunjin respirou fundo, como se ainda pudesse sentir o peso daquelas memórias. Então, ele voltou a olhar para Felix, sua expressão repleta de dor e amargura.

— Meu pai fazia parte da facção. — confessou ele, sua voz baixa mas firme. — Ele não era o líder, mas estava envolvido há anos. Ele me contou porque... porque eu descobri e o confrontei. Eu o convenci de que a coisa certa a fazer era entregar tudo para a polícia, tentar reparar o mal que tinha feito.

Felix o olhava, atônito com a revelação. Havia uma mistura de choque e compreensão em seus olhos.

— E o que aconteceu? — Felix perguntou, quase temendo a resposta.

— Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, eles descobriram. — Hyunjin cerrou o punho, um brilho sombrio em seu olhar. — Não sei como, mas eles sempre têm olhos e ouvidos em todo lugar. Meu pai morreu antes de sequer dar o primeiro passo.

Felix permaneceu em silêncio, sentindo o peso do que Hyunjin estava revelando. Ele entendia agora porque Hyunjin guardava tanto rancor e obsessão por expor aquela facção, mesmo que isso colocasse sua própria vida em risco.

— Eu sinto muito, amor — murmurou Felix, segurando a mão de Hyunjin com firmeza. — Agora entendo por que você precisa fazer justiça... por ele.

Hyunjin apertou a mão de Felix, respirando fundo e assentindo.

— Eu faço isso por ele. Mas também... faço por nós, para que a gente tenha paz. Eu nunca quis que você se envolvesse com isso, Felix. Eu queria que você tivesse uma vida tranquila, longe disso tudo.

Felix olhou para ele, determinado.

— Hyunjin, eu estou com você. Isso não é só sobre você, é sobre nós dois. Eu quero estar ao seu lado, seja para acabar com essa facção ou para te dar apoio. Não vou sair do seu lado.

Hyunjin deu um pequeno sorriso, a expressão cansada mas grata. Ele colocou a mão no rosto de Felix, acariciando-o com carinho.

— Obrigado, meu amor. — murmurou ele, sua voz quase um sussurro. — Não sei o que faria sem você.

Felix inclinou-se e depositou um beijo suave no canto da boca de Hyunjin, seus lábios mal roçando os dele, mas o gesto estava cheio de ternura. Ele se afastou apenas o suficiente para observar a expressão de Hyunjin, e então franziu o cenho, uma dúvida crescendo dentro dele.

— Mas… como eles souberam? — perguntou Felix em um tom baixo, quase como se estivesse pensando em voz alta. — Se só você e ele sabiam… — Ele deixou a frase no ar, esperando que Hyunjin completasse o raciocínio.

Hyunjin suspirou, o olhar pesado, perdido em pensamentos sombrios que pareciam assombrá-lo há anos. Ele passou a mão pelo cabelo, um gesto nervoso e contido, e então respondeu com a voz baixa e cansada.

— Eu pensei nisso tantas vezes, Lix… — confessou, seus olhos encontrando os de Felix com uma mistura de frustração e dor. — Depois que ele morreu, comecei a desconfiar de todo mundo. Achei que algum conhecido próximo, um “amigo” dele, pudesse ter traído… ou até alguém da minha família.

Felix olhou para ele com um olhar cheio de empatia, mas também com uma ponta de preocupação. Ele acariciou o peito de Hyunjin com os dedos, seus toques leves oferecendo um conforto silencioso.

— Mas nenhuma das suspeitas fazia sentido, né? — murmurou ele, tentando compreender o que Hyunjin havia passado, a desconfiança constante, a sensação de insegurança.

— Nenhuma. — Hyunjin balançou a cabeça, exasperado. — Sempre que eu achava que estava perto de alguma resposta, a lógica escapava de mim. Era como tentar segurar fumaça nas mãos. Então comecei a pensar… e se tivesse alguém infiltrado dentro da facção, alguém tão cuidadoso que ninguém perceberia?

Felix ouviu atentamente, absorvendo cada palavra. Ele passou a mão suavemente do abdômen de Hyunjin até o peito, sentindo a respiração irregular de seu marido sob a palma. Então, inclinou-se e beijou a pele dele, próximo ao coração, num gesto carinhoso, e aninhou-se ainda mais contra o corpo de Hyunjin.

— Isso deve ter sido… solitário. — murmurou ele, com empatia sincera. — Eu não posso imaginar o que você passou. Deve ter sido como viver em constante paranoia.

Hyunjin sorriu, mas era um sorriso triste, carregado de melancolia.

— Foi… mas agora, com você aqui, parece que posso respirar um pouco mais. — Ele passou o braço ao redor de Felix, puxando-o para mais perto e beijando sua testa. — Mesmo assim, não vou descansar até descobrir quem fez isso.

Felix assentiu, determinado.

— Eu tô com você, amor. Não importa o que aconteça. — Ele sorriu, um sorriso encorajador, e apertou o corpo de Hyunjin contra o seu.

Hyunjin fechou os olhos por um momento, absorvendo o apoio silencioso que Felix lhe dava. Era como se, com ele ali, as sombras do passado se dissipassem um pouco, dando lugar a uma paz momentânea.

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