Capítulo 58

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No dia seguinte, pela manhã, Alfonso estava deitado, porém mais desperto. Seu semblante estava tranquilo enquanto observava a vida lá fora através da janela, embora o corpo ainda sentisse os efeitos do tiro.

Any estava ao seu lado, na poltrona, quando a porta se abriu suavemente, e Maite entrou primeiro, sorrindo ao ver que ele estava acordado.

Maite: Licença..

Any: Oi, Mai! Entra... - Falou, com um sorriso.

Logo atrás dela, Padre Christian entrou, com seu jeito alegre e acolhedor. Mas naquela manhã, seus olhos carregavam algo diferente: uma emoção contida, antiga. Ele se aproximou e tocou o ombro de Alfonso com carinho.

Chris: É bom te ver de pé... ou quase - disse com leveza, mas havia peso em sua voz.

Any, que segurava a mão de Alfonso, sorriu para os dois. O clima era de reencontro, de gratidão. Depois de algumas palavras leves, risos baixos e atualizações sobre o estado de saúde de Poncho, veio o silêncio. Aquele tipo de silêncio que anuncia que algo importante será dito.

Christian puxou uma cadeira e se sentou. Seus olhos encontraram os de Alfonso. Ele respirou fundo.

Chris: Você é um heroi, eu admiro a forma como você e a Any foram corajosos... Ela pra largar uma vida de internato para viver um amor e você por protegê-la acima de tudo, até da sua própria vida.

Maite e Any se olharam, entendendo o que havia por trás daquelas palavras. Poncho apenas escutava, curioso. Christian resolveu continuar.

Chris: Há muito tempo... há algo que guardo dentro de mim. Algo que poucas pessoas sabem - disse, olhando de relance para Maite, que assentiu com um leve gesto. Ele respirou fundo e continuou -  E hoje, vendo você aqui, lutando pela vida, eu senti que era hora.

Alfonso o observava com atenção, com o olhar calmo. Anahí apertou sua mão, incentivando Christian a continuar.

Chris: Quando eu era mais jovem... já me preparava para ser padre, convicto da minha fé, da minha vocação. Mas no meio do caminho, conheci alguém. Um homem. E por ele, meu mundo se desequilibrou.

Maite baixou os olhos, emocionada.

Chris: Nós nos envolvemos. Foi amor... de verdade. Não uma aventura escondida, não uma tentação. Foi amor. Mas a pressão, o medo, a culpa... e a escolha. Eu escolhi o caminho da fé - ele baixou os olhos por um instante - e deixei aquele amor para trás.

Alfonso não disse nada, mas seus olhos estavam marejados.

Chris: Anos depois, ele adoeceu. E morreu. Sozinho. Eu nunca estive lá. Nunca me despedi. Carrego isso comigo todos os dias. Rezo por ele. Rezo por mim.

A emoção tomou o ar, densa, tocante. Christian continuou:

Chris: Por isso, talvez, sempre fui tão protetor com vocês. Com o amor de vocês. Rezei para que a Any e você tivessem uma chance. Que não deixassem que o medo decidisse por vocês. Porque eu sei o que é perder por medo.

Alfonso estendeu a mão livre e a apoiou sobre a de Christian.

Poncho: Obrigado... por confiar isso a mim. E obrigado por estar com ela. Eu sei que você nunca a deixou sozinha - disse, com a voz embargada.

Anahí se aproximou mais da cama, limpando discretamente uma lágrima.

Any: Vocês dois... Maite, Christian... foram minha força quando tudo parecia desabar. Quando o Alfonso estava entre a vida e a morte, e eu não sabia se ele ia voltar pra mim, vocês ficaram. Me ajudaram a respirar. A suportar.

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