LVI

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Flower and Ashes

Hold On - James Arthur

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O último trecho da Campina se estendia diante deles como um lençol de ouro bordado em verde. O sol, já em declínio, tingia os campos floridos com tons de cobre e lavanda, como se o mundo houvesse decidido, por fim, oferecer beleza sem exigência.

As flores silvestres balançavam sob a brisa fresca, e os cavalos pisavam sobre a terra macia com a docilidade típica das boas estradas. Era o fim da jornada. Mas para Rhaenys Targaryen, nada parecia terminar.

A cada solavanco da sela, seu corpo protestava com mais insistência. Respirava com esforço, como se o ar fosse escasso ou pesado demais. As costas ardiam em pontos que ela não sabia mais nomear, e os tornozelos latejavam como se carregassem grilhões invisíveis. Sua barriga, enorme, projetava-se à frente como um altar de sacrifício, e qualquer movimento - por mais simples - a fazia se sentir à beira de um abismo.

Sete meses de gravidez. Mas os gêmeos pareciam querer ocupar mais do que espaço: ocupavam seu fôlego, seus ossos, seus pensamentos.

Ela se manteve ereta na sela apenas por orgulho. Tinha ordens para ser levada de liteira nos últimos trechos, mas recusara. Queria ver o horizonte. Queria ver com os próprios olhos onde recomeçaria.

Nem mesmo os campos pacíficos da Campina conseguiam distraí-la. Havia rosas, lírios, margaridas - um mar de cores suaves a perder de vista. Mas dentro de si, só existia ruído. O silêncio de Lançassolar ainda a acompanhava, e com ele o eco do que não foi dito. Azia. Náuseas. Dores agudas que nasciam na base da coluna e subiam como punhais.

Nada parecia estar em paz.

- Tô com saudade dos gatinhos do jardim. - Disse uma vozinha ao seu lado, quebrando o silêncio.

Obara estava emburrada. O rosto redondo se escondia parcialmente sob o capuz claro, e as mãos pequenas apertavam com força o tecido das roupas, como se tentasse segurar o mundo.

- Também sinto falta deles, minha flor. - Respondeu Rhaenys, com esforço.

- E do papai.

O golpe veio manso, mas certeiro. Rhaenys não respondeu de imediato. Inspirou o ar perfumado da Campina como quem engole veneno com mel. Seus olhos, antes voltados para o pôr do sol, agora se fixavam nas mãos da filha. Tão pequenas. Tão leais.

- Eu sei. - Disse, por fim. - Mas você está comigo. E isso basta por agora, não é?

Obara hesitou, o cenho franzido. Mas assentiu. Como se entendesse que o mundo dos adultos era uma bagunça que ela ainda não precisava arrumar. Como se, na dúvida, ficasse com a mãe - sempre com a mãe.

𝕱𝖎𝖗𝖊 𝖆𝖓𝖉 𝕾𝖆𝖓𝖉 - 𝕺𝖇𝖊𝖗𝖞𝖓 𝕸𝖆𝖗𝖙𝖊𝖑𝖑Onde histórias criam vida. Descubra agora