LXIII

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The Weight of Almost

Ghost - Ingrid Michaelson

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O quarto repousava em penumbra, envolto pelo calor discreto de uma lareira baixa. A chama dançava preguiçosa, lançando sombras longas nas paredes, como se quisesse preservar o silêncio. O cheiro de madeira queimada misturava-se ao leve perfume de lavanda vindo das roupas recém-lavadas, criando um abrigo morno contra o mundo lá fora.

Tyene dormia profundamente no berço próximo à cama, o rosto suave escondido sob a penumbra, respirando num compasso tão regular que quase se confundia com o crepitar da lenha. A manta fina subia e descia sobre seu peito miúdo.

Nymeria, desperta, estava nos braços da mãe. Os olhinhos escuros - tão vivos para tão poucos dias de vida - seguiam cada movimento, como se o mundo inteiro coubesse ali, naquela troca silenciosa. Uma mecha branca, fina mas inconfundível, riscava-lhe a cabeça como um sinal deixado por alguma história antiga.

Rhaenys embalava a filha num movimento lento e compassado, sem pressa. Usava apenas um traje de dormir leve, de tecido macio, ajustado para o conforto. Os pés descalços sentiam o toque frio do piso de pedra, mas o calor do corpo da menina e o abrigo da lareira bastavam. Os cabelos, soltos, caíam sobre os ombros, livres de coroas, tranças ou adornos - um raro abandono de formalidades.

O cansaço pesava sobre ela, mas não como fardo. Era um cansaço novo, de entrega, quase doce. Sentia os músculos relaxarem pela primeira vez em dias, e a respiração vinha profunda, calma. Ali, sozinha com as filhas, o mundo parecia caber numa bolha onde nada de urgente podia atravessar.

O silêncio não era vazio; era pleno. Tinha o peso da intimidade, como se cada crepitar da lareira e cada suspiro das meninas fosse uma música suave.

E então, entre um balanço e outro, veio o som: um clique discreto, seguido pelo arrastar lento da porta.

Ela não precisou se virar. Conhecia aquele passo como se fosse parte de sua memória corporal - o ritmo calmo, porém seguro, de alguém que não se apressava nem para a própria vitória.

Oberyn entrou sem pressa. A luz trêmula da lareira recortou seu rosto em ângulos quentes e frios, projetando metade de suas feições na sombra. Vestia roupas simples, mas o porte permanecia o mesmo: seguro, ainda que menos altivo que antes.

Ele fechou a porta com cuidado, sem ruídos desnecessários, e não falou. Deixou que o silêncio continuasse reinando, como se não quisesse perturbar o pequeno equilíbrio que ela construíra naquela noite.

Rhaenys não desviou o olhar de Nymeria, mas sabia exatamente onde ele estava no quarto. Sabia a distância exata entre o passo dele e o berço de Tyene. Sentiu o peso de sua presença se aproximar, mas não como ameaça - mais como um corpo estrangeiro entrando num território protegido.

𝕱𝖎𝖗𝖊 𝖆𝖓𝖉 𝕾𝖆𝖓𝖉 - 𝕺𝖇𝖊𝖗𝖞𝖓 𝕸𝖆𝖗𝖙𝖊𝖑𝖑Onde histórias criam vida. Descubra agora