LXXIV

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What remained

Wayfaring Stranger - Johnny Cash

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A Fortaleza Vermelha cheirava a cinza e ferro. O ar, espesso de fumaça, agarrava-se à garganta de Oberyn como uma luva encharcada; a fuligem assentava-se sobre a pele, tornando cada respiração mais espessa. Ele mancava entre destroços: peças de mobiliário quebrado, pedaços de tapeçaria em brasas, corpos que eram arrastados como trapos.

O corte no braço esquerdo ardia, a bandagem lhe esquadrinhava a pele com calor - e havia outra dor mais funda, no flanco, onde a lâmina o abrira quase até os ossos. Era o corpo que lembrava a violência; era a mente que sangrava lembranças.

Os homens que o escoltavam caminhavam com passos medidos. Não havia insígnias facilmente reconhecíveis - dourados, prata, peles escuras - tudo misturado pelo pó e pela lama de sangue.

Oberyn não sabia se eram Lannisters cabisbaixos, ou soldados que agora obedeciam ao norte; ninguém, naquele momento, parecia portar certeza maior que a sobrevivência. A lealdade pendia no ar como fumaça: visível, mas sem forma.

Quando o corredor abriu para o Salão do Trono, a visão o alcançou como um golpe.

O Trono de Ferro jazia encoberto por fuligem e sangue; lâminas das espadas que o moldaram brilhavam com o brilho lamacento da morte. Parte do teto cedeu, e o fiapo de luz que vinha de cima percorria os degraus do trono como uma acusação. O eco dos passos reverberava nas colunas despidas - um som que lembrava riso de bezerro em festa; riso que no fundo zombava da tragédia.

No chão, nas escadas, havia manchas e pequenas poças, como se a própria pedra sangrasse.

E ali, no centro do caos que ainda fumegava, estava o corpo do rei.
Aerys II parecia ter sucumbido a algo que não era apenas a lâmina: estava esvaziado, uma marioneta que perdera o último fio.

Não houve coro, nem pranto organizado; havia apenas o espaço aberto ao redor dele, onde antes o poder se sentara.

Jaime Lannister permanecia encostado aos degraus, coberto de sangue, com a expressão dura e vazia de quem vira a si mesmo atravessando limites.

Ninguém o tocava.

Ele se sentara e ficara ali - como quem espera o alvorecer depois de um inverno - até que Eddard Stark chegara e tomara o que a cidade oferecia: ordem entre o desvario. Jaime não parecia exultar; não parecia pensar. Apenas existia, o vermelho do sangue colando-lhe as roupas ao corpo.

Oberyn parou. A imagem do sogro - o rei que tantas vezes o encarara com desprezo ou temor - fez-lhe a garganta apertar.

Pensou em Rhaenys: como contaria? Como esperava que ela ficasse ao saber que o trono que lhe nascera no sangue agora estava vazio e manchado?
Pensou na rainha Rhaella - nenhum relato chegou; pensou no menino Viserys, pálido e pequeno, em algum lugar entre portas trancadas e gritos.
A incerteza mordia como os cortes frescos.

𝕱𝖎𝖗𝖊 𝖆𝖓𝖉 𝕾𝖆𝖓𝖉 - 𝕺𝖇𝖊𝖗𝖞𝖓 𝕸𝖆𝖗𝖙𝖊𝖑𝖑Onde histórias criam vida. Descubra agora