LXXII

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The Sea's Shiver

What the Water Gave Me - Florence + The Machine

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O sol nascia preguiçoso sobre Lançassolar, tingindo o céu de um dourado leve, quase líquido. A brisa do mar chegava carregada de sal e serenidade, deslizando por entre as palmeiras e pelas varandas abertas do castelo. O som das ondas, ao longe, parecia marcar o compasso da manhã - lento, constante, familiar.

Rhaenys caminhava sozinha pela areia quente do pátio inferior, onde o chão era mais claro e o ar trazia o aroma seco das pedras aquecidas. O vestido leve - tecido lilás, preso por um cinto de seda - dançava ao sabor do vento. Ela não levava escolta, nem damas.

Apenas o som suave de suas sandálias quebrava o silêncio.

À frente, sob a sombra curta de uma torre baixa, jazia Nyrys - o dragão branco de olhos vermelhos. A criatura repousava sobre o chão de areia e rocha, o corpo imenso estirado como uma sombra viva. As asas, meio abertas, formavam uma tenda de luz e sombra sobre o próprio dorso. O sol refletia no brilho pálido das escamas, fazendo-o parecer um espectro de neve sob o calor do deserto.

Rhaenys parou por um instante. Havia algo quase sagrado em olhar para ele - um misto de respeito e de pertencimento. Desde que chegara a Dorne, passava parte das manhãs ali, em silêncio, sentindo que o dragão percebia o que ela mesma não sabia dizer em voz alta.

Deu mais alguns passos, aproximando-se devagar. O som de suas sandálias sobre a areia foi o bastante para que a enorme cabeça se movesse. Os olhos rubros se abriram - duas brasas calmas que a seguiram com atenção.

- Bom dia, meu dragão. - Murmurou ela, a voz quase um sussurro, como se temesse quebrar a paz da manhã.

Nyrys ergueu o pescoço, soltando um som baixo, grave, que fez o ar vibrar. O hálito quente que escapou de suas narinas ondulou o véu de areia diante deles.

Rhaenys estendeu a mão, aproximando-se até que os dedos roçassem a escama fria. Ele não recuou. A pele dela contrastava com o branco metálico do dragão - viva e frágil contra algo eterno.

Por um instante, ela fechou os olhos. Sentiu o coração desacelerar, o vento mudar. Nyrys se moveu de leve, ajustando a asa, como se respondesse ao seu toque.
Ali, sob o sol de Dorne, havia silêncio. Mas não era um silêncio vazio - era o tipo de quietude que antecede a lembrança.

E Rhaenys, mesmo sem querer, lembrou.
Lembrou de Porto Real.
Pensou em Oberyn.
No nome de Elia sussurrado em preces e pesadelos.
Nas súplicas aos deuses, sem saber se eles sequer a ouviriam.

Abriu os olhos devagar.
Nyrys ainda a observava.
Ele também parecia sentir - a inquietação que ela trazia dentro do peito, a sombra que nenhuma distância apagava.

𝕱𝖎𝖗𝖊 𝖆𝖓𝖉 𝕾𝖆𝖓𝖉 - 𝕺𝖇𝖊𝖗𝖞𝖓 𝕸𝖆𝖗𝖙𝖊𝖑𝖑Onde histórias criam vida. Descubra agora