XLIV

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Blood's Flowers

My Body is a Cage - Arcade Fire

My Body is a Cage - Arcade Fire

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O som das trombetas ainda ecoava pelo pátio quando Rhaenys alcançou a tribuna reservada à família real. Os degraus de pedra sob os pés pareciam mais íngremes do que o necessário, talvez pela gestação ou apenas pela ansiedade que, há dias, habitava em seu peito. O manto vermelho-púrpura com o emblema Targaryen flutuava levemente ao vento, enquanto seus olhos varriam o entorno à procura de um lugar vago.

Foi Elia quem se virou primeiro, um sorriso caloroso abrindo-se em seu rosto pálido.

- Rhaenys - disse, suavemente, e se moveu para abrir espaço no banco de pedra entalhada. - Aqui.

Havia algo de reconfortante em Elia. Talvez fosse o tom de voz gentil, ou o modo como ajeitava o véu sempre com delicadeza. Sentar-se ao seu lado trazia uma ponta de segurança, uma lembrança distante de tempos mais fáceis, antes de tudo se tornar tão... frágil.

Mas nem mesmo a presença dela anulava o desconforto. A poucos passos, envolto em mantos negros forrados de pele, estava Aerys II. O Rei. Seu pai. Os cabelos desgrenhados e prateados pareciam ainda mais escassos sob a coroa, os olhos fundos e brilhantes num devaneio próprio, como se o mundo real não mais o alcançasse. Sua boca se movia em murmúrios inconstantes, e o cheiro de fumaça e óleo impregnava sua presença como uma segunda pele.

Ele não olhou para Rhaenys. Mas ela sabia que a via.

Sabia que, aos olhos do pai, ela jamais deixaria de ser a filha que o envergonhara. Bastarda. Essa era a palavra que ele associava a Obara, ainda que sua existência já fosse legitimada pelo casamento. Um nome cuspido entre dentes amarelos e inflamados, numa noite que Rhaenys preferia não reviver.

Ela desviou o olhar, então, para aquilo que realmente importava: as crianças.

Lá embaixo, nos degraus mais baixos da arquibancada comum, Obara estava sentada entre Rowena e a pequena Rhaenys - sua prima, filha de Elia. As duas meninas, tão próximas em idade, compartilhavam alguma piada silenciosa, rindo enquanto seguravam fitas vermelhas e douradas nas mãos. Rowena, atenta, segurava o cantil de água e ria baixo também, o olhar alternando entre as meninas e a movimentação do campo.

Era uma cena simples. Mas arrancou de Rhaenys um leve suspiro, seguido por um sorriso melancólico. Queria que a filha tivesse mais daquilo - dias simples, risadas ao vento, calor de família. Sem presságios. Sem tormentas.

- Elas parecem ter se entendido bem. - Comentou Elia, os olhos seguindo o mesmo ponto.

- São crianças. - Rhaenys respondeu. - Ainda são puras o suficiente para enxergarem só aquilo que é bom.

𝕱𝖎𝖗𝖊 𝖆𝖓𝖉 𝕾𝖆𝖓𝖉 - 𝕺𝖇𝖊𝖗𝖞𝖓 𝕸𝖆𝖗𝖙𝖊𝖑𝖑Onde histórias criam vida. Descubra agora