Instituto Xavier

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Natasha se sentou aos pés da cama, observando a menina adormecida, abraçada ao dragão de pelúcia que se tornara seu companheiro constante, quando dentro de casa, vestindo seu pijama azul-marinho de estrelas brancas, cabelos espalhados pelo travesseiro e caindo sobre a fronte serena em cachos, cobertas jogadas para longe das pernas, mas presas entre os braços junto à pelúcia. O joelho ralado ontem na brincadeira com Cooper, Lila e Clint já estava praticamente curado – o soro da Black Widow, na criança, era cem por cento eficaz no aprimoramento de força, velocidade, agilidade e regeneração. Tão eficaz quanto na própria espiã. – e as bochechas haviam adquirido um tom corado saudável, ao longo dos últimos sete dias. Mais um sinal de melhora: naquela noite não houvera pesadelos de qualquer tipo, pela primeira vez. Ante aquela cena tão tranquila, seria fácil esquecer que Lucy não era apenas uma criança inocente e serena; a sensação estranha que recrudescia em si tornava mais difícil ficar ali e pensar na alternativa a discutir com a garota, para o próprio bem de ambas. Enquanto sua mente esperava convencer a criança, seu lado menos lógico e pateticamente carente queria que falhasse nisso.

- Bom dia, Mama. – A voz da menina soou sonolenta enquanto esfregava os olhos ao se sentar no leito. Seus últimos minutos de sono se haviam permeado dos pensamentos da mãe, deixando-a incomodada e nervosa, incapaz de reconhecer o limite entre o sonho e a realidade. – Você está bem? – Seu rosto pueril se franziu em preocupação, o sono subitamente espantado.

- Sim, pequena, estou. – Romanoff segurou o rosto da garota num gesto firme e delicado. – Mas preciso saber como você está, realmente. – Ela pegou a xícara de café com leite que trouxera para Lucy e a entregou à garota enquanto bebericava o próprio café. - Como se sente?

Lucy a fitou com sua habitual seriedade e lucidez, mas havia uma mudança surpreendente no olhar da menina... As sombras, a dor e o trauma não poderiam ser rapidamente apagados, e talvez nunca fossem, mas passara a haver tão mais, ali! Enquanto outros jovens em mesma situação levariam meses para sequer iniciar uma recuperação, as percepções extraordinárias da menina lhe haviam apresentado naqueles poucos dias um universo inteiro de oportunidades e novas emoções, os pensamentos e sensações daqueles que a cercavam servindo como meio de aprendizado tão real e eficaz quanto o mundo sensorial... Provavelmente ainda mais. A fazenda se tornara seu pequeno reino seguro e pleno de maravilhas, e as pessoas ali presentes – os Barton, Natasha e, desde ontem, Steve – com suas personalidades rapidamente compreendidas (senão em detalhes, ao menos em suas demandas principais), haviam passado a ser seu grupo, clã... Família. Confiava em cada um em graus diferentes, mas podia dirigir essa confiança a cada um deles, não de modo cego, mas por saber como se sentiam e de que modo agiriam em relação a si. Bem, talvez isso não fosse confiança, afinal... Apenas compreensão e segurança. Independente do nome, eram vínculos fortes, e começavam a dar sinais de reciprocidade enquanto a garota demonstrava em gestos e pensamentos importar-se com cada um deles. Tanta mudança, em tão pouco tempo...

- Lucy, eu sei que prefere se comunicar por telepatia, mas preciso que converse comigo com palavras, para não nos desviarmos da linha de raciocínio. Pode fazer isso? – A ruivinha anuiu, então Natasha insistiu. – Como se sente?

- Você me mostrou um mundo que era só um sonho, antes. Uma ideia que eu via na cabeça das pessoas, pedaços de memórias que nunca iam ser minhas. E por sua causa, agora é real. – Um leve sorriso brotou em seus lábios. – Agora sei o que é sentir felicidade. As coisas que me ensinaram e fizeram, na HIDRA, ainda estão comigo, mas pelo menos sei que não sou só aquilo. – A íris índigo brilharam através da preocupação no rosto infantil. – Mas eu sei que, mesmo me tratando bem, você não sabe se quer ficar comigo.

Natasha não esperara ouvir aquilo, muito menos que a tristeza na voz da menina fosse tão contida e racional; fazia sentido, apesar de tudo: controlar e reprimir as próprias emoções fora tudo quanto Lucy aprendera em sua vida. Não era uma criança mimada ou levada por arroubos, mas acostumada com a frustração, com ter os eventos fora de seu controle e seguindo rumos indesejados, dolorosos e desagradáveis. Talvez fosse mais fácil se ela protestasse ou argumentasse, manifestasse raiva ou qualquer outra emoção além daquela mágoa resignada, embora facilitasse a continuidade do diálogo.

A Aranha na TeiaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora