Natasha se sentou na cadeira ao lado da cama de Peggy, após arrumar no vaso sobre o criado-mudo as flores que lhe trouxera, e segurou a mão da outra mulher com uma gentileza que poucos recebiam de si. A cama de madeira maciça e lençóis cor de creme comportava sobre si uma mulher de bastante idade, cabelos compridos e brancos impecavelmente arrumados, rosto bastante enrugado pelos mais de noventa anos, porém dotada de olhos vivazes como poucos, cheios de inteligência e de vontade, mesmo que agora tivessem um brilho cansado somado à determinação onipresente. O quarto de paredes amarelo-pálido, com cortinas rosa-champagne puxadas para expor as quatro janelas de folha dupla totalmente abertas, e mobília simples e funcional não poderia denunciar que ali estava uma das melhores espiãs de sua época. E talvez exatamente por aparentar tanta fragilidade e delicadeza em seu bom gosto elegante é que Carter houvesse sido tão excepcional: as pessoas a subestimavam, e percebiam tarde demais o erro. A ruiva aprendera a não fazer isso logo em seu primeiro encontro com a inicialmente rival, e posteriormente amiga.
- Oi, devuschka. Como você está? Sharon me disse que não andou muito bem. – A Widow e o Capitão eram as únicas pessoas que a chamavam de garota, o que fazia a ex-agente sorrir, evocando o melhor de sua juventude.
- Hmpf... – Peggy grunhiu e revirou os olhos para a preocupação da russa. – Para meu problema não existe conserto, Natasha. Estou velha, e isso não tem remendo. – Ela parou por alguns segundos, fitando a amiga de tantas décadas, cuja aparência não parecia sequer um dia diferente do que era no dia em que se haviam conhecido. – Pelo menos, não agora. Mas não comece a comemorar: ainda não vai se livrar de mim.
A russa deu um sorriso e apertou levemente a mão de sua amiga; a longevidade podia ser uma maldição, e às vezes a mulher se arrependia profundamente dos poucos laços que criara, sabendo-se fadada a viver muito mais do que seus entes queridos... Mas o arrependimento pouco durava, antes das boas lembranças resultantes desses poucos vínculos afastarem o fantasma da perda.
- Bom ouvir isso. Não estou preparada para uma vida em que você não seja uma pedra no meu sapato, Margareth.
- Você, Natalia, está preparada para absolutamente tudo. – devolveu a idosa, finalmente puxando a outra para um abraço. Sabia que Nat não fazia o tipo que abraçava, mas não estava nem aí. Quando finalmente se afastaram, tornou a se recostar nos travesseiros contra a cabeceira e perguntou:
- Em quais problemas está metida, agora? Posso sentir daqui o cheiro das engrenagens girando em sua cabeça.
- Só... Uma missão que está se tornando mais pessoal do que deveria. Não se incomode, está quase no fim.
- Deixe adivinhar... Crianças envolvidas?
- Aprimoramento humano. – Concordou a espiã, dando de ombros como se não importasse. – Ossos do ofício.
- Vou fingir que acredito, só para me poupar de uma longa discussão. – Os olhos escuros de Peggy se haviam toldado de preocupação: Natasha poderia se fingir de inatingível para quase todos, mas Margareth a conhecia quase tão bem quanto Barton o fazia. Tentando distrair a outra do assunto, desconversou. – Agora me conte... como estão você e o Rogers? Vão parar de se enrolar, ou vou ter de bater suas cabeças uma na outra, até que entre algum bom senso nelas? – Havia uma nota de humor ácido em suas palavras, o que fez Natasha rir silenciosamente antes de responder:
- Nós... Decidimos tentar. Não sei exatamente o que temos, mas é alguma coisa. Estamos nos dando uma chance.
Peggy se empertigou na cama, olhando pela janela de cenho franzido:
- Onde está o alerta de tornado em New York? – Mesmo tentando, não conseguiu evitar o tom divertido em sua voz, genuinamente feliz por ambos. – Achei que não ia viver para ver isso acontecer! – Vendo o apertar de lábios da russa, tratou de tranquiliza-la – Os dois terão vidas longas demais para serem passadas sozinhas. Apenas vocês não enxergavam o que vinha acontecendo, Natalia. É bom saber que resolveram ser honestos consigo mesmos, e deixar para trás os conceitos furados que os impediam.
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A Aranha na Teia
Fiksi PenggemarNatasha Romanoff sempre fez jus ao codinome Viúva Negra; suas mentiras e disfarces eram tecidos com a mais perfeita maestria, enredando as vítimas como a suave e invisível teia de uma aranha. Ela sempre dominou suas farsas, sempre conheceu bem a pró...
