Redenção

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Natasha fitou as nuvens de tempestade a partir do pequeno apartamento que possuía, nos subúrbios de New York; era um lugar simples, de três cômodos, mas lhe servia bem. Ainda há pouco subira os nove andares de escadas, rindo internamente de um modo ácido quando a senhora do 802 lhe disse para tomar cuidado, pois "era perigoso uma garota ficar por aí sozinha, àquela hora". Como se houvesse nas redondezas algo mais perigoso do que ela... Ainda assim, o conselho gentil da senhora que sequer a conhecia senão de vista ajudava a aumentar sua empatia pelas pessoas, confirmando que havia boas almas no mundo.

As últimas horas da russa haviam sido dedicadas a cobrir todas as falhas que o sequestro pudesse ter deixado: já sob o disfarce de Melinda Lambert – não impecável, mas já bom o suficiente para enganar a gerência do hotel sem levantar suspeitas – fez o check-out no Plaza e deu entrada em outro hotel, não muito longe do primeiro, porém afastado da Main Square – qualquer um julgaria ser relacionado à movimentação da rua -, apenas para manter um registro de atividades, para que a médica não parecesse haver desaparecido. No quarto alugado, entrou novamente nos sistemas, lendo mais a respeito do papel que cumpriria e repassando algumas centenas de e-mails trocados entre sua prisioneira e os outros membros das equipes, superiores e "fornecedores" – era impressionante como o tráfico humano acontecia diariamente, embaixo do nariz das autoridades, e muita vezes com a conivência ou participação dessas.

Após tratar desses detalhes, cuidou de procurar um de seus refúgios: pequenos apartamentos ou quartos em subúrbios que comprara ao longo dos anos, os quais mantinha como covis seguros e depósitos de armas, caso precisasse se esconder ou reequipar... Ou se precisasse ficar longe do mundo, como agora, enquanto bebia um café amargo e tentava se esquecer de quem era.

As lembranças do interrogatório em si não eram tão ruins. Era necessário, e podia lidar com isso. O que a destruía eram as emoções que afloraram em si... Frieza, crueldade... Em alguns momentos ela gostara daquilo, como costumava gostar na época da KGB, e essa percepção a fizera esvaziar o estômago na velha pia já umas duas vezes. E com as palavras usadas pela prisioneira, os sentimentos dos quais fugira por um bom tempo e o despertar das memórias antigas sobre o monstro que já fora, sobrevieram os pesadelos acordada. As memórias das quais não podia escapar, os sonhos de sangue. Chegou a se banhar para fugir à sensação de imundície, mas não se sentia melhor, não importava se esfregasse a própria pele até esfolá-la, como se todo o sangue que derramara em sua vida se grudasse a sua carne e sua alma, impossível de limpar!

Enrolada em um cobertor, bebia o líquido amargo em silêncio enquanto ouvia a chuva; parecia-lhe que o cantar das telhas de metal se tornavam gritos... Não os gritos da prisioneira. Não apenas. Os gritos de suas vítimas... Mulheres, crianças... Das crianças no hospital em São Paulo. Que direito tinha de julgar a cientista? Não era melhor do que ela. Não era melhor do que qualquer um da HIDRA. Há vinte e três anos vinha tentando limpar o vermelho em seu livro, mas como limpar sangue com sangue? Quantos assassinatos cometera, mudando apenas a bandeira em nome da qual fazia? Não houvera uma época em que gostava de matar? Não ajudava saber que sua raiva não era apenas por causa das crianças, mas uma projeção do ódio nutrido por aqueles que a haviam transformado no que era. E nessas horas, quando encarava as profundezas dilaceradas e putrefatas da própria alma, Natalia odiava a si mesma, e todos que a haviam transformado nisso. As últimas informações que obtivera apenas aumentavam a sensação.

Compreendendo que ficar ali não faria senão leva-la a remoer coisas que deveria deixar para trás, abandonou a coberta sobre o sofá e saiu para o corredor de paredes sem pintura e reboco descascado, abriu a porta que dava para as escadas de metal antigas e subiu para o terraço. O temporal desabava sem piedade, cada gota de chuva ardendo como um golpe de chicote; a espiã apenas tirou o casaco e se entregou à fúria da natureza, desejando que aquela dor, frio e a água que escorria pudessem lavar de si tanta podridão.

A Aranha na TeiaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora