- Tô indo agora mesmo! – exclamei antes de desligar o celular. Encostei-me ao estofado almofadado do banco, jogando minha bolsa no banco de acompanhante. O celular ficou no topo.
Respirei fundo três vezes antes de dar marcha e sair cantando pneu pela rua esburacada. Passei em dois semáforos fechados, quase colidindo de lado com um caminhão pipa que avançava. Não tinha tempo pra parar.
Precisava encontrar Lara. E tinha que ser o quanto antes.
Suas palavras trêmulas ao telefone ainda soavam em meu ouvido, e repetiam-se como uma fita gravada com uma música só.
- Lara? O que aconteceu?
- Ele es... está aqui... Bel! – foi a resposta trêmula de medo que recebi de minha amiga. Sua voz embargada em emoção. Suas palavras pareciam consumidas pelas lágrimas que involuntariamente ela deixava escorrer.
- Ele? – perguntei, temendo saber a quem se referia.
- Não foi um suicídio... não foi... não foi! – Lara repetia de maneira tão tortuosa que chegava a me doer o coração – Ele está atrás de mim... atrás de mim, Bel.
- Lara, onde você está? – perguntei, já sentindo o formigamento subir por meus braços.
- Casa. – ela apenas respondeu, antes que sua voz sumisse em um telefone consumido pelo chiado.
- Lara... - Meu coração quase parou por um segundo, e em seguida, bateu fortemente. Minhas pernas fraquejaram, e um formigamento subiu por meus braços.
A sombra que vi no parapeito da janela. Era ele.
Ele estava com Lara.
Cheguei à casa dela antes que pudesse me dar conta, e só então percebi a minha estupidez. Eu estive na Delegacia antes de vir para cá. Deveria ter prestado queixa, chamado os policiais ou o raio que o parta. Não sei! Mas não deveria ter aparecido ali, sozinha, sem reforços.
Embora meu medo de que algo pudesse acontecer com Lara fosse bem maior.
O portão estava destrancado, então apenas o abri não poupando esforços para que não emitisse nenhum ruído. Aquele homem estava com Lara, não conseguia imaginar as atrocidades que poderia... fazer com ela.
Hesitei antes de dar um passo a mais. Estava tudo silencioso do lado de dentro. O tipo de silêncio que causava incômodo por fazer com que nada fosse audível.
Meu respirar se tornou tão lento que pude contar cada vez que meu peito contraía e soltava o ar em baforadas ritmadas.
A casa de Lara possuía um vasto corredor antes de dar entrada à cozinha. Cheguei ao vão da cozinha, mas não havia ninguém ali. Abri a primeira gaveta, e puxei uma faca Tramontina. Estava bem afiada, e se fosse preciso, eu faria um simples corte rápido em quem tivesse deixado minha amiga naquele estado.
Pela forma como falou comigo ao telefone, eu temia tanto que tinha medo de ir mais a fundo naquela doida missão que eu havia me envolvido. A de salvar Lara.
Segui o corredor a caminho dos quartos. Ouvi um farfalhar angustiado no quarto dela. Empurrei a porta, e dei de cara com uma Lara chorosa. Ela estava debruçada sobre seus joelhos, com as madeixas jogadas no rosto e embaraçadas. Seu aspecto não estava dos melhores, e para alguém que sempre foi tão vaidosa, encontra-la daquela maneira era uma situação peculiar.
- Lara... – corri em sua direção, envolvendo sua cabeça e abraçando-a. – O que aconteceu com você? – perguntei, sentindo pena pelo estado lastimável que ela se encontrava.
- Ele veio até mim. – sua fala estava mais contida do que por telefone – Ele veio, Bel. Não sei porque ele veio. Mas ele veio.
Ela estava atordoada. Ainda repetia a mesma coisa três vezes. Eu não entendia.
- O homem que eu vi ontem no parapeito da janela? – perguntei, tentando acalmá-la.
Ela assentiu.
- Ele trouxe um cão com ele. – seu olhar se tornou evasivo. Lara encarava o nada, como se tentasse recordar a fisionomia do cão. – Era enorme. Nunca vi igual, Bel. Nunca vi!
Seus olhos se arregalaram, e ela os colocou em mim, apenas naquele momento notando minha face.
- Ele está atrás de gente como eu. – ela exclamou, e depois riu. Seu riso foi tão forçado, como uma piada inconveniente contada no pior momento. Lara não dizia nada de maneira coesa, mas seu tom me assustava.
- Vou te levar para o meu apartamento. – tomei uma decisão firme. – Você não pode ficar aqui. Não sozinha! – me levantei, posicionando as mãos na cintura. - Quando o tal homem com o cão foi embora? – perguntei, na tentativa de que Lara me desse alguma informação completa. Que fizesse sentido.
Ela abriu um sorriso. Seu olhar estava vazio, mas ela me encarava. Eu via loucura no fundo de seus olhos.
- Ele não foi. – seu tom se tornou terno. Ela girou a cabeça, e seu olhar novamente se tornou evasivo, enquanto encarava a porta.
- Não foi? Mas pensei que estivéssemos à sós aqui!
Suas feições se contraíram, e no que era uma expressão de divertimento beirada à loucura, vi medo.
- Ele não foi, Bel! – Lara continuava encarando a porta. – Pois o cão ainda está aqui. – e se dobrando novamente em seus joelhos, ela farfalhou. – Está aqui, Bel.
- Aqui onde, Lara? – ajoelhei na sua frente, preocupada.
Ela levantou a cabeça para me encarar, e dessa vez, em tom mais contido, apenas respondeu:
- Atrás de você!
***
Nota da Escritora: Amores, me perdoem pelo tempo que fiquei sem postar. Mais de um mês! Estive enrolada com alguns problemas pessoais, mas pretendo recompensar o tempo perdido. Em breve vocês saberão o porquê de Lara ter ficado tão atordoada.
Até breve! :)
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Não foi suicídio!
Misterio / SuspensoBelina vê sua vida virar do avesso ao presenciar um suicídio. Frio, rápido e sem explicação. Uma jovem se joga do topo de um prédio, tendo seu corpo perfurado pelos cacos de vidro da calçada. Ninguém entende como uma jovem no auge de sua vida era c...
