43. Dentro de minha mente

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O tempo acelera diante de meus olhos. Eu não sento mais com tanta precisão os fatos acontecerem, e tudo o que me resta, são memórias de um tempo em que tudo se iniciara.

Diante da cena do último suicídio que havia acontecido, eu me recordo do momento em que vi meu pai, e o quanto aquilo conseguiu me deixar furiosa. Lembro do momento em que ele me contou que eu gerava um filho em meu ventre, mesmo que eu não fizesse ideia daquilo.

Ele sabia o que se passava dentro de mim melhor do que eu mesma. Ele sabia que eu acabaria me tornando uma louca, e que em algum momento, eu cederia ao que Lara me pedia. Ao que Guilherme veio na intenção de me induzir. Ao que meu pai sabia que, mais cedo ou mais tarde, deveria ser feito.

E todos eles me induziriam àquilo.

Eu seria a próxima a morrer.

Já havia aceitado meu destino. Minha mente perturbada era uma combustão de imaginação e fervilhava em brasa. Eu sei que não havia outra saída para mim, e enquanto caminho do lado oposto ao prédio em que a garota se jogou, penso em como será quando chegasse a minha vez.

Doeria? Lara me garantiu que não, mas eu não estou em condições de acreditar na palavra de uma suicida lunática, embora eu estivesse prestes a me tornar uma. Eu preciso tirar a minha própria vida o quanto antes.

Não posso permitir que aquela criança que em meu ventre é gerada, chegue ao final da gestação, para que meu pai faça o que tem a intenção de fazer com ela.

Eu sei muito bem para qual finalidade ele sempre quisera ter um neto. Aquilo se tornava bem claro diante de meus olhos, e agora que eu já descobri toda a verdade sobre o plano que ele tinha em mente.

Sobre a chamada Sociedade Ceifeiros. Sobre tudo o que eles estavam fazendo pela Região Metropolitana de Solitude. Tudo que haviam feito à mim.

Lembrei de semanas atrás, como se aqueles acontecimentos tivessem acontecido há anos. Guilherme aparecendo diante de meus olhos, em carne e osso.

Semanas antes – Vitória dos Campos

- Ele só pode ter ficado louco, não é? – virei para os dois homens diante de mim, banhada em minhas próprias lágrimas. Pierre olhava perplexo para mim, sabendo a merda na qual nós estávamos naquele momento.

Guilherme parecia decepcionado. Jogado às traças no chão. Ele era um homem bom, e sei que sua decepção consistia no fato de que ele sabia que nunca poderia me dar um filho, mas que eu tendo um filho com Pierre, mudava tudo.

Eu não entendia como aquilo poderia ser possível. Só deveria ser algum tipo de magia na qual estávamos impregnados, pois, mesmo não tendo usado proteção nenhuma na loucura que eu e Pierre cometemos, não seria tão simples engravidar instantaneamente daquele jeito. Não é mesmo?

Tudo era opaco para mim. Inusitado e num ritmo frenético, eu tentava absorver as informações que me eram jogadas diante dos olhos, e eu nada poderia fazer para alterar o curso delas.

Eu estava mesmo gerando uma criança? Aquilo não fazia sentido para mim, mas senti o peso da culpa surgindo e aumentando de intensidade diante de meus ombros.

A região tornava-se dolorida e curvada, como se um peso de ferro estivesse prensado contra o local. Mas era apenas a culpa dando as caras novamente.

Ao meu lado, Lara estava e se lamentava pela situação que se revelava para nós.

- Eu amava você, Bel. – ela começava a dizer, com a voz embargada e totalmente lamuriada. – Eu amava incondicionalmente. Até mesmo em seus maiores defeitos. Amava tudo o que você acreditava haver de errado contigo. E queria te ver bem. Apesar de sofrer com seu namoro...

- O que você está falando? – eu virava em sua direção, notando o rumo que aquela conversa começava a tomar, e não me satisfazia. Tudo o que acontecia durante os últimos tempos, eram novidades tremendas para mim.

O luto pela morte de Lara passara quando ela começou a acompanhar meus passos. Era uma boa amiga, devo dizer, mas já havia transposto todos os limites que eu poderia suportar.

Lara era a melhor amiga que se poderia ter, até certo ponto. E eu já estava vendo que ela era bem diferente do que eu havia pensado durante todo aquele tempo em que a conhecia.

Mas é claro. Não sei como não havia reparado naqueles sinais nítidos que ela deixara bem diante de meus olhos.

- Eu gostava de você! Mais do que amei o Pierre. – e se lamentava, enquanto eu ainda chorosa estava no meio da calçada, jogada às traças e inconsolável. Eu parecia uma verdadeira lunática reverberando em uma cidade pacata.

Pacata e marcada pelos crimes tão insensíveis que haviam acontecido. Oh, todo o peso de ressentimentos caíam em meus braços cansados, e eu ainda aguentava o que Lara tinha a me dizer, por mais que suas palavras fossem lâminas afiadas entrando dentro de meu ser.

- Eu fiz o pacto por você! – aquelas palavras eram a fagulha que faltava para que eu me sentisse tão culpada pelos erros cometidos. No final das contas, havia sido eu a causadora de todos os males que cercavam a minha vida.

Era eu a filha do algoz. Era eu a funcionária da filha da chefe que se suicidara. Era eu a melhor amiga da vítima. Era eu o motivo pelo qual a melhor amiga havia feito o pacto. Era eu o motivo pelo qual o namorado havia forjado a própria morte.

Se é que ele havia forjado mesmo.

Mas tudo se voltava ao ponto em comum em todas aquelas histórias. Eu fui o motivo pelo qual o grande ceifeiro precisava de um neto, afinal, havia sido uma grande decepção quando eu nasci mulher.

O que Angelus Mortis precisava para completar suas cruéis intenções como ceifeiro, era de um primogênito do sexo masculino. Ele precisava que eu tivesse nascido menino, mas como não havia acontecido, eu seria o motivo pelo qual ele precisaria de um neto.

O neto que, de algum modo, ele estava prestes de conseguir. Mas eu não poderia deixar aquilo acontecer. Não realmente.

Eu precisava fazê-lo parar, ou as consequências seriam catastróficas.

E como eu era a raiz de todo o mal, eu precisava dar um jeito em mim mesma.

De uma vez por todas. 

Não foi suicídio! Histórias para pegar e não largar. Descubra agora