48. Dou a permissão

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Guilherme estava determinado a me levar de volta para Solitude. Já atravessávamos os limites da cidade Verde Folha. Daquela vez, não faríamos mais nenhuma parada. Nosso destino era certeiro agora, e não tinha nenhum outro caminho para o qual desejássemos ir.

O início de minha jornada foi em Solitude. Seu fim também deveria ser. Embora não tivesse contado meus planos para ele, sei que ele apoiava aquela decisão. Afinal, depois de tudo o que ele me contou sobre quando era Almir, e como tomou posse de seu antigo corpo, eu sabia que ele só tinha me localizado, para me convencer a fazer o mesmo.

Me suicidar.

E assim, me juntar à ele por toda a nossa eternidade particular.

- Tudo vai ficar bem para nós, meu amor! – ele mantinha as mãos duras no volante, mas tinha falsa doçura em seu tom de voz. – Você vai ver!

Fechei os olhos com força, tentando conter aquele peso que de mim não saía, mas estava prestes a explodir. Eu teria que cometer suicídio! Minhas pernas fraquejavam só de imaginar uma coisa daquelas, meus braços ficavam dormentes e meus olhos pesavam.

Uma tristeza profunda me arrastava a alma, consumindo minhas forças. Eu havia ultrapassado o nível de loucura. O que eu sentia já não era mais aquilo.

Era uma dor terrível similar à depressão: meu corpo doía inteiro, como se estivesse moído em milhares de pedaços, mas eu sentia a minha alma. Sentia como se fosse algo palpável, que eu conseguia segurar entre meus dedos.

Era uma dor que me arrastava tudo de bom que eu havia sido, como se apenas as coisas ruins tivessem importância. Eu havia sido um fracasso na vida, pensava com imensa amargura.

Falhara na escola. Falhara no emprego. Falhara no amor. Falhara até em não querer mais falhar. A vida passava diante de meus olhos, ressaltando os momentos ruins. As coisas ruins que eu havia feito, e ficaram imponíveis, ou sem perdão.

A culpa voltava a me invadir uma vez mais, sugando a vitalidade que me restava. A grandiosa culpa de quem está à beira da morte, e se dá conta de que viveu uma vida toda pela metade.

E que antes de ter feito tudo o que deveria, não há mais volta. Não existe sentido em continuar uma vida que não é para ser sua. Quem não vive os seus sonhos, já deixou de viver há muito tempo. E eu havia deixado de viver os meus.

Chegamos à Solitude antes mesmo que eu me desse conta.

- A polícia não estará atrás de mim? – perguntei, afinal, ele era o delegado, antes de ter deixado aquela casca.

- Não. Já dei ordens bem claras. Os meus homens agora estão concentrados em outra coisa. – ele foi claro ao que deveria ser dito, e nem questionei.

Sabia perfeitamente qual era a ordem que os policiais haviam recebido. Eles iam ajudar no plano de meu pai, não é mesmo? Por mais que verdadeiramente ninguém apoiasse, e estivessem imersos em uma enorme rede de mentiras e lamúrias, a melhor opção que os policiais tinham no momento, era de estarem ao lado de seu delegado.

E seu o delegado queria que todos estivessem distraídos com os suicídios coletivos, então assim seria.

- O que você pretende fazer comigo? – perguntei, com a ferida das descobertas aberta dentro de meu peito.

- Só quero te levar até Solitude! Depois você decida o que será melhor. – e fazendo uma pausa, ele alegou. – Quero que saiba que eu apenas quero passar o restante de minha eternidade, sabendo que terei você ao meu lado.

Seus sentimentos pareciam sinceros, apesar do método nefasto que ele utilizava para se aproximar de mim.

Ele me dizia para continuar a confiar nele, pois continuava sendo o mesmo Guilherme que me deixara tempos atrás. Mas minha consciência mantinha um pé atrás.

Olhei pelo retrovisor, me deparando novamente com os olhares gélidos de Lara pousando em mim. Ela sussurrava palavras desconexas em meu ouvido, dando a ideia de que eu deveria permitir que ela me conduzisse pelo caminho. Que somente ela poderia ser a mão que me guiaria para o caminho da liberdade.

Mas eu teria que ceder.

E então, dei permissão para que ela fizesse o que bem entendesse dentro de mim. Dei permissão para que ela fosse adentrando, já não mais em minha mente, mas agora, em meu corpo também.

Era o que ela sempre quis. Não era?

O vento gélido passou em minha nuca, primeiramente. Desceu pela vértebra, como um frio inesperado que assombra a coluna. Acariciou minhas coxas, desceu por minhas pernas, e dominou até as pontas de meus pés.

O calafrio me dominou intensamente, me fazendo suar frio por alguns segundos. Olhei pelo retrovisor, e Lara já não estava mais no banco traseiro.

Encarei meu próprio reflexo no espelho, e denotei um brilho travesso diferente. Era a sua presença, que agora, me habitava por completo.

- Você está bem, Bel? – Guilherme instigou, já pronto para pegar a Avenida, enquanto adentrávamos a cidade.

- Estou ótima! – virei o rosto para ele. Uma sobrancelha estava erguida, enquanto a outra se mantinha na mesma linha de expressão. Um sorriso se vez notável em meus lábios, irônico e irreverente. – E logo estarei melhor ainda! – antes que ele se desse conta do que estava acontecendo, abri a porta do carro e pulei.

A Avenida não estava tumultuada aquela hora. Caí rolando no meio do caminho, escutando carros a buzinarem para mim.

Mas eu estava bem. Guilherme parava o carro e tentava vir em minha direção.

Eu fugia o mais rápido que podia para longe dele.

Precisava fazer aquilo sozinha.

Apenas eu e Lara. 

Não foi suicídio! Histórias para pegar e não largar. Descubra agora