1. O princípio

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Três meses antes. 


  Minha vida não costumava ser tão pacata, mas desde que havia me estabilizado, ela tornara-se comum. Possuía um bom cargo em uma grande empresa do mundo corporativo, e apesar de ganhar bem o bastante para manter meu padrão de vida, odiava estar em um emprego maçante. 

Havia terminado um relacionamento tão recentemente, que já não me interessava mais analisar os macho-alphas da redondeza, pois todos queriam apenas a mesma coisa: uma boa noite de diversão com meu corpo. 

E minha paciência para babacas já havia esgotado a cota! 

Agora, eu me concentrava em viver a minha vida, da forma como eu poderia. Trabalhava num lugar que me sugava as energias,mesmo sendo nova, já tinha desistido de cada sonho que possuí um dia, e estava solteira. 

Não saía para baladas. Não curtia a vida. Há anos não ia a uma igreja. Praticamente não viajava. Eu realmente não vivia, apenas existia. Assim como a maioria das pessoas. 

Aquela era uma tarde de domingo, como quase todas as outras.O único dia em que eu e minha melhor amiga de infância nos encontrávamos para, conforme suas palavras, colocarmos a fofoca em dia. 

Diminuí o ritmo de meus passos, tentando acompanhar Lara Letícia. A cidade de Solitude, embora fosse uma grande metrópole urbana, possuía a paisagem mais aprazível em suas praças. 

Árvores frondosas e carregadas em folhas coloridas, bancos de madeira sujos pelos pombos, uma grandiosa catedral ao centro, para aqueles que estivessem dispostos a confessarem seus pecados. 

Nós nos encontrávamos aos domingos naquele lugar, para falarmos sobre nossas vidas. Minha amiga costumava ser a melhor pessoa do mundo em seus conselhos, sempre denotados de grande sabedoria, mas era uma chata de galocha quando se tratava da própria vida. O motivo era bem simples. 

— Ai, o Pierre é tão perfeito. – e pronunciava o nome dona morado enrolando o r no céu da boca. — Aqueles músculos, aquele sorriso, aquela bunda... – Depois da palavra "bunda", eu geralmente não ouvia mais nada. 

Sim, sou uma doida que gosta de bundas redondas e firmes.Condene-me por isso, mas sei que no fundo deve concordar comigo. 

Pierre era o namorado perfeito, e Lara ainda tinha o mesmo brilho no olhar ao falar sobre ele, apesar de estarem juntos há anos. 

— Belina, você não tá prestando atenção. – Ela bufava comigo, sempre que eu entrava em meus devaneios e não lhe dava toda a atenção que gritava por merecer. 

O sol irradiava à minha frente, deturpando minha visão. Virei-mede frente a ela, abrindo o maior sorriso sarcástico que meus lábios tão finos permitiam. 

— Me desculpe. Bundas me distraem fácil. – nos encaramos por dois segundos, o suficiente para ela esboçar um sorriso de canto,demonstrando que já havia me perdoado. 

Sentamos em um banco coberto pelas folhas secas da árvore,ao lado do busto mal esculpido do primeiro prefeito da cidade de Solitude. Do outro lado da rua, era possível avistar crianças brincando tão animadamente no meio da rua, à frente da calçada do Edifício Aine. O maior prédio daquela praça.

— Cuidado com o caco de vidro! – uma criança gritava para outra, subindo na calçada do prédio. Pelo visto, a farra dos meus vizinhos havia sido boa, caso contrário, não teriam quebrado tantas garrafas de bebida alcoólica na calçada. 

Eu não compreendia aqueles delinquentes juvenis que não tinham a mínima noção de que em espaço público, não é lugar para deixar sua sujeira. 

Não foi suicídio! Histórias para pegar e não largar. Descubra agora