Guilherme mantinha suas mãos firmes no volante, sem nada dizer sobre o assunto.
Eu sentia que por dentro ele deveria estar buscando as palavras certas para explicar a situação, mas eu o havia encurralado em um beco sem saída: só precisava de uma explicação simples e direta sobre aquela mensagem de texto que havia chegado, e nunca mais tocaria no assunto.
- Não é o que parece. – ele disse na mais típica das frases de novelas globais, e eu não pude deixar de rir.
- E o que parece ser? – instiguei, sentindo minha mente fervilhar em uma intensidade bem mais forte, sentindo espasmos de dor e loucura invadindo novamente. – Eu posso fazer inúmeras teorias sobre isso. Você pode ter roubado o celular do delegado. – eu dizia enfaticamente, dando uma pausa para cada palavra. Meus olhos arregalados não escondiam o exaspero que passava por mim em grande assombro.
Vi Lara no banco traseiro, e ela ria gostosamente em minha direção, repetindo aquela frase:
- Eu te avisei, eu te avisei... – e sua voz entrava ainda mais fortemente em minha cabeça, fazendo com que suas palavras se tornassem mais reais, assim como minha loucura ia tomando forma.
A loucura é uma dádiva dos nobres, transpassada em uma mente outrora lúcida, em um clarão de mente que os fizera ver a tudo e todos por outro ângulo. Loucura é o desejo gritante de uma mente sufocada em sua própria irrealidade, pela ansiedade de tornar-se real.
E aquela era a minha loucura. O meu peso. O que eu deveria carregar em meus ombros, braços, no corpo inteiro, e deixar que invadisse a minha alma. A minha falta de lucidez tornava-se mais palpável conforme os vidros imaginários se estilhaçavam diante de meus olhos.
Toda aquela situação estranha se revelava para mim, e antes mesmo que ele pudesse dar quaisquer explicações, eu deduzia os fatos:
- Foi por isso que você me intimou a ir para a delegacia? – eu refletia, desta vez, olhando mais uma cidade que estávamos deixando para trás. Mais uma marcava pelo inebriante gosto do sangue em nossas mãos, pela morte. Pelas vidas que haviam sido deixadas para trás. – Claro que o delegado não saberia quem eu sou, apenas olhando a foto de minha bunda pelo jornal. – dei um riso sem graça, conectando todos os pontos soltos de uma vez só. – Não era um simples delegado. Era você! – eu sussurrei, sentindo as lágrimas quentes descendo pelas maçãs de meu rosto, sentindo toda a dor que por mim passava, sendo descarregada naquele instante. A verdade esteve ali, diante de meus olhos.
De soslaio, eu conseguia ver o rosto de Lara satisfeito por aquilo. Ela havia me alertado sobre aquilo. Ela tinha falado, e eu não fui capaz de dar a devida atenção que ela merecia, pois acreditava que estivesse ali apenas para me pirraçar.
- Sim! – Guilherme dava início, medindo suas palavras antes de dizê-las à mim. – Você não é capaz de compreender tudo agora, Bel. Mas peço que tenha paciência...
- Não sou capaz? – viro abruptamente o rosto para ele, o encarando como se fosse uma grande lunática, permeada em seu próprio delírio. – Tente. Apenas tente, você sabe as coisas que passei nos últimos tempos. Não duvide de minha capacidade em acreditar em qualquer bobagem fora do comum que tenha a dizer.
E então, ele começou a contar tudo. Sobre como havia morrido, e teve que se apossar de outro corpo, para ficar perto de mim. Contou sobre o quanto o mal o corroeu durante aquele tempo, mas que ter a mim novamente em sua vida o fazia exaltar seu lado bom novamente.
Contou sobre o corpo no cofre. Sobre o plano de meu pai, e como tudo aquilo sempre esteve conectado. Meu pai queria transformar o mundo em um imenso purgatório, onde ele seria o rei de todos nós.
A situação não poderia ser mais nauseante. Mas ele me desbravava todo o plano, deixando-me a cada segundo mais perplexa com as coisas que ele havia feito por meu pai, deixando dúvidas se eu poderia vir a perdoá-lo algum dia.
- O que você tem a me dizer sobre tudo isso? – ele perguntou, assim que finalizou seu relato.
- Você conhece o Roberto então? – instiguei, lembrando do homem que havia me deixado em estado de transe.
- Ele é um dos nossos. – sua expressão deixou os fios de meus cabelos em pé, mas eu já estava muito dentro daquilo para deixar passar qualquer detalhe.
- Por que ele me hipnotizou naquele dia? – nem me dei ao trabalho de explicar, pois pelo seu relato, já havia ficado claro que nada do que eu fiz durante todo aquele tempo, era novidade para ele.
Ele já sabia muito bem sobre o que eu falava, e não precisei de maiores explicações até que ele saciasse todas as minhas dúvidas.
- Era a única maneira de Lara aparecer para você. – ele engoliu em seco, tomando fôlego para continuar. – Ela precisava te conduzir ao suicídio.
- Por que? Por que uma pessoa que eu nem conheço quer isso? – aqueles motivos estapafúrdios não me convenciam.
- Você é a única filha do Angelus. Aquela que pode dar um herdeiro à ele. E se você morresse, isso tardaria os planos de Angelus. Eles poderiam não acabar, definitivamente, mas tardariam, até que ele achasse outra saída.
- Roberto me quer morta para atrapalhar os planos de Angelus? Mas pensei que eles fossem amigos, e estivessem do mesmo lado.
Ele me olha como se eu fosse a pessoa mais ingênua do mundo.
- Em quem você pode confiar, Bel? Até mesmo sua melhor amiga, que você conheceu a vida toda, escondia segredos imensos de você. Acha mesmo que em uma briga de poderes, alguém ali estaria disposto a deixar seus interesses de lado, pelo bem de uma amizade?
Tive que concordar com ele. Guilherme me assombrava, mas, tinha razão.
E mesmo não gostando de ser favorável ao homem que me queria morta, eu teria que fazer o que estivesse ao meu alcance para tardar o plano de meu pai.
Nem que com ele, a minha vida fosse junto.
***
Passando apenas para dizer que está acabando.
Ansiosos para o final?
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Não foi suicídio!
Mystery / ThrillerBelina vê sua vida virar do avesso ao presenciar um suicídio. Frio, rápido e sem explicação. Uma jovem se joga do topo de um prédio, tendo seu corpo perfurado pelos cacos de vidro da calçada. Ninguém entende como uma jovem no auge de sua vida era c...
