Pouco tempo depois. Presente.
Acordo de meu breve devaneio, noto que ainda estou à espreita na cena do crime. Aquele suicídio que acabou de acontecer, e, assim como os outros, já não causa tanto pavor às pessoas que por aqui passam.
Noto as pessoas que atravessam multidões através de mim. Ninguém ali repara em minha presença, e com isso, tenho um momento de plena liberdade. Ouço meu celular tocando, e verifico o número na tela novamente: Guilherme.
Nem dou atenção, afinal, tenho algo bem mais relevante a fazer em breve. Abro meu casaco, e admiro a bela adaga dourada que aparece diante de meus olhos. A melhor coisa que Guilherme fez por mim durante aquele tempo, foi me revelar sobre a adaga, e seus poderes.
Meu pai ainda precisa dela. Sinto isso! Ela o ajudaria em seus poderes mágicos a transformar o ritual em realidade: ele precisa do bebê que está em meu ventre, para inicia-lo em seu ritual. A adaga já estava banhada com o sangue do pai da criança.
Apenas com um herdeiro, ele conseguiria alavancar o seu plano de uma só vez, e da forma mais eficaz que seria possível.
Eu sabia perfeitamente que não o deixaria fazer aquilo. Ele não iria se apossar de meu corpo, e fazer o que bem entendesse dele. Eu tinha que tomar uma decisão importante, não é?
E não seria ele, nem ninguém, que iria me impedir de dar prosseguimento ao meu desejo. Embora eles ainda me procurassem. Embora ainda estivessem por perto, como reparo ao me deparar com a sombra no parapeito da janela.
As pessoas já não dão importância mais no que é visto. Já não se interessavam mais em saber. Só estão preocupados com a própria mediocridade. Mas eu estivera sempre à espreita, tentando me manter o mais perto do perigo.
Lara ainda estava dentro de meu corpo. Eu tinha dado permissão clara para que ela entrasse, e se apossasse de minhas vontades. Quando chegasse o momento, eu não teria coragem de fazer o que tanto era necessário. Então eu preciso dela ali. Preciso, pois sei que ela tomará as rédeas de meu sofrimento, e teria a coragem que me faltava no ato suicida.
- Olha só o que temos aqui! - exclamo, ao me deparar com o jornal jogado bem na direção de meus pés.
Era mais um dos exemplares. Também publicado pelo Gazetino Informativo. Também com a data do dia seguinte bem ao topo. Anuncia aquilo que havia acabo de presenciar.
- Você sabe o que isso significa, Lara? - pergunto à ela, que ainda estava silenciosa dentro de mim, e solto um riso de felicidade. - Esse é apenas mais um deles. Dos suicídios que aconteceram. E precisaram ficar registrados aqui. No jornal.
Solto um riso e jogo a cabeça para trás. Tanto que esperei por aquele momento. O próximo jornal será o meu, já não me resta a menor dúvida sobre isso.
Eu já consigo ver a manchete ser estampada com o meu nome em letras garrafais em seu topo. A filha do grande ceifeiro.
Nada mais conveniente do que aquilo. A filha que estava tentando atrapalhar os planos do próprio pai, apenas para manter seu egoísmo exacerbado.
Ora, eu nunca fui o melhor exemplo de filha mesmo.
Vi que as pessoas já se dispersavam da cena do crime, então, sorrateiramente como um rato de esgoto, segui em direção ao prédio. Meu pai ainda está ali dentro, e sei que ele sente que eu me aproximo.
Ele não era o Angelus Mortis à toa, não é?
Eu só preciso chegar ao topo do prédio, e com a adaga dourada, atraí-lo para lá. Aquele plano passa diante de minha mente, e eu só pude regozijar a mim mesma por ser tão genial, em criar um plano perfeito em suas nuances.
Chego à cobertura do prédio, e mesmo de costas, noto a sua presença comigo.
- Você está fora de si, Bel! - ele diz, fingindo ser o pai preocupado.
Sua preocupação comigo nada mais era do que uma satisfação do próprio ego: ele apenas se importaria, enquanto soubesse que eu carregava em meu ventre o seu objeto de desejo.
O que ele mais quer e precisa Mas eu não vou dar esse gostinho para ele.
- A Bel já não existe mais! - dou um sorriso de satisfação. Minha cabeça vira para trás, em 180' graus, lentamente, ainda em cima do tronco que mantivera-se imóvel. - E você pode assistir ao que estou prestes a fazer.
Sem dizer mais nada, e antes que ele chegue até mim, empunho a adaga na direção de meu ventre. O sangue começa a jorrar, e as vísceras caem. Enfinco ainda mais profundamente a adaga, e todo aquele sangue escorre de mim.
A dor invade cada ponto de meu corpo, mas já não há mais tempo de voltar atrás. A adaga ainda banhada de sangue, é removida do corpo, e quando ela sai, o que resta do feto cai junto aos meus pés.
- Não era esse o neto que você queria? - pergunto, olhando perturbada em sua direção. Meus olhos vidrados reviram, e sinto aquele frio passando por meu corpo, e saindo totalmente dele.
Lara já poderia ser vista do lado de fora de mim. E eu, encaro o feto esquartejado à minha frente, os meus órgãos ao chão, e meus sistemas parando lentamente de funcionar. Um a um.
Meu corpo inerte adormece meus sentidos.
Era chegada a minha hora.
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Não foi suicídio!
Misteri / ThrillerBelina vê sua vida virar do avesso ao presenciar um suicídio. Frio, rápido e sem explicação. Uma jovem se joga do topo de um prédio, tendo seu corpo perfurado pelos cacos de vidro da calçada. Ninguém entende como uma jovem no auge de sua vida era c...
