DELEGACIA DE SOLITUDE
O Delegado Almir andava de um lado para o outro à frente de sua grande mesa de madeira, no aguardo da tão esperada visita. O relógio com números romanos na parede de seu gabinete marcavam as horas que aparentavam não passar.
Ainda fazia sol em Solitude. Um calor escaldante que permeava os poros de seu corpo, e o faziam suar. Ele não aguentava mais as vestes grudadas a seu corpo, mas ainda não havia terminado seu expediente.
Sempre achou muito mais conveniente encontrar seus comparsas dentro da própria Delegacia, do que em sua casa. Afinal, já passava a maior parte de seu tempo ali, e os policiais o respeitavam o suficiente para não bisbilhotarem nas atividades que ele fazia, ou deixava de fazer.
- Você demorou! – ele afirmava ao ver o homem adentrando seu gabinete. O homem carregava uma enorme maleta de couro preta, trazendo dentro dela o tão necessário objeto que precisavam para que o rito final fosse, enfim, concretizado.
- Tive problemas de chegada. – o outro sussurrava, mirando a si mesmo. – Precisei encontrar um corpo que fosse adequado para o processo. Uma alma sozinha não pode vaguear fora de Santo Ceifeiro. Sabes muito bem disso.
- Pois bem! – Almir deu meia volta, sentando-se em sua espaçosa poltrona, em pose de comando, e com o peito estufado, fez a simples pergunta. – Você a viu?
O homem de estatura mediana deu um grande sorriso de regozijo ao lembrar-se da encantadora mulher que havia encontrado.
- Oh, sim! – seus olhos vidrados relembravam a figura da mulher de pele morena clara que havia se deparado naquele dia mais cedo. Seus cabelos cacheados como a lhe caírem como uma densa cachoeira em seu ombro tão formoso e delicado. – Até flertamos, por um momento. – ele disse, lembrando-se do instante em que a moça havia entrado acompanhada daquele rapaz na grande cafeteria da qual era dono em Santo Ceifeiro.
- Você não perde mesmo uma oportunidade, hein? – o delegado dizia em modo de repreensão, como se ficasse enciumado por alguém flertar com a sua doce Belina.
- Foi ela quem começou. – o homem levantava as mãos na altura do ombro, provocando ainda mais o ciúme exacerbado do delegado. – Mas ela foi uma grande espertinha, devo admitir. O que queria mesmo era saber sobre o antigo dono do Gazetino.
- Ora! – o delegado levantou uma sobrancelha, realmente surpreso pela revelação que acabara de ouvir. – Então ela já está indo longe demais para descobrir toda a verdade por trás dos suicídios. Pensei que ela não seria tão perspicaz.
- E você esperava outra coisa? – o moço sorria, fazendo deboche de seu amigo – O sangue não nega, não é mesmo? Além do mais, você não poderia esperar menos, após ter mandado ele matar a melhor amiga de Belina Colombari.
- Eu não o mandei mata-la. – o delegado tentava argumentar, intrigado. – Ela fez isso por si mesma.
- Ninguém consegue sobreviver à tortura psicológica de Angelus. E eu sei perfeitamente isso. Afinal, se não fosse por ele, eu ainda estaria curtindo a minha vida, antes dele decidir por tomar posse da cidade e transforma-la em seu purgatório. – e fazendo uma pausa, o homem continuou – Além do mais, não estaria me apossando de outro corpo para sair de minha cidade sem parecer uma assombração.
- Ora, você apenas sabe reclamar! – o delegado dizia sem grande satisfação, já farto das lamúrias que o outro homem fazia. – Se não está satisfeito com o serviço, deixe que outro o faça. – e continuando, completou com ênfase. – Oh, é mesmo. Você não passa de um submisso.
- Cale-se! – o homem gritou, irritado. – Ah, Angelus Mortis é um grande cretino que merecia o pior.
- Como o que? – o delegado instigou, divertidamente. – A morte? – e jogou a cabeça para trás, soltando a sua mais sonora gargalhada.
- Não tem como mata-lo, infelizmente. – o homem parecia pensativo e completamente aborrecido. Para ele, aquela situação toda estava se tornando absurda, e já não via mais a hora de dar um final definitivo àquela agonia. – Mas ele poderia pelo menos nos ter deixado morrer em paz. Eu preferia que meu espírito estivesse livre, a ter que passar o restante de minha morte preso à Santo Ceifeiro, em um ciclo sem fim.
- Não reclame. Você ainda deu sorte de permanecer lá. Nem imagino o que fariam se soubessem que o delegado de uma grande metrópole como Solitude, não passa de uma alma que vaga dentro de um corpo.
- E o que são as pessoas, se não almas vazias dentro de um corpo desocupado? Vivos ou mortos, somos meros espíritos vagando em uma infinidade aniquilada de desolação. – ele filosoficamente dizia, ao alisar a maleta em que trouxera o que eu havia pedido.
- Acho melhor irmos direto aos negócios. Não quero perder meu tempo me lamentando por meu corpo que foi ceifado por Angelus. – e olhando na direção de seus próprios braços, acrescentou – Eu gosto dessa nova casca. Bem mais confortável do que aquele corpo miúdo que antes eu tinha. E fora que eu sou uma das maiores autoridades nesta cidade.
- Se é assim, então você deveria ter possuído o corpo do prefeito. – ele soltou uma gargalhada estridente.
- Aquele corpo já estava ocupado. Ou você acha que uma alma sã faria tantas atrocidades em uma cidade? – e dando de ombros, prosseguiu. – Mas, estamos fugindo do assunto, meu caro.
O jovem aquiesceu, alisando novamente a maleta entre seus dedos.
- Claro. Não poderíamos nos esquecer deste pequeno detalhe aqui.
- Deixe a maleta. Pode ir se quiser.
- Acredita que seja simples assim? Eu apenas deixo a grande arma do mestre contigo, e terei de ir embora? – o homem pestanejou, reclamando.
- A sua recompensa está com um de meus homens. – o delegado anuncia.
- Adoro quando fala assim. – o outro riu-se, divertido. – Meus homens. Dá até um tesão.
- Ora, não seja ridículo! – disse à ele, indignado. – Pelo menos tenho vidas a controlar, melhor do que nada possuir.
- Tudo bem, não está mais aqui quem falou. – o homem levantou os braços, dando-se por satisfeito. – Você irá mata-la?
O Delegado mirou a tela de seu computador, antes de responder. As imagens de Belina ainda passavam na tela. Ele a mirava com grande carinho. Havia admiração em seu olhar.
- Eu não vou mata-la – Almir levantou-se, e pegando a maleta de couro preto das mãos de seu comparsa, a abriu, revelando a grande adaga dourada. A adaga possuía ornamentos de ouro velho, com três pérolas em lugares estratégicos. Sua ponta era como a de uma flecha: certeira para o alvo que a atirassem – Eu farei com que ela mesma faça isso.
***
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Abraços.
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Não foi suicídio!
Misterio / SuspensoBelina vê sua vida virar do avesso ao presenciar um suicídio. Frio, rápido e sem explicação. Uma jovem se joga do topo de um prédio, tendo seu corpo perfurado pelos cacos de vidro da calçada. Ninguém entende como uma jovem no auge de sua vida era c...
