Escolhas e Lembranças

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 Enquanto ouvia Livia tocar, Beatriz se perde em uma de suas lembranças mais antigas.

A casa estava cheia, a mãe, chorando, acabavam de voltar do enterro de seu pai, a família, sempre unida, estava pela casa, conversando, falando, algumas pessoas a abraçavam, outras, puxavam papo, ela andava pela casa, em vão, seu pai não estava mais lá, e ninguém podia entender a dor que sentia.

Andou até o quarto de sua mãe, mas esta estava chorando com sua avó, abraçada, tinha nas mãos uma das gravatas favoritas de seu pai.

Resolveu sair do quarto, lembra que tomava cuidado para não amassar seu vestidinho, pois seu pai o tinha dado, tinha bem pouco tempo, do alto de seus quatro anos, Beatriz sabia que uma mocinha deveria se comportar, mas queria correr, e chorar sozinha.

Andou pela casa e, de repente viu seu tio sozinho na varanda, pouca gente sabia, mas seu tio vinha ver seu pai toda quinta feira, ele acendia um cigarro e sentava naquela cadeira, assim mesmo como estava, e seu pai abria o armário, pegava o gamão e o colocava sobre a mesinha da varanda, sentava em frente a Jose e os dois ficavam jogando, as vezes conversavam, mas geralmente jogavam em silêncio.

Pelo menos enquanto Bia estava por perto.

Beatriz sentava na varanda com suas bonecas e ficava olhando os dois jogarem, adorava quando seu pai jogava os dados e tirava um "duplo", tio José franzia a testa e praguejava, Bia ria nessa hora.

Beatriz foi até o armário, pediu a sua tia e ela o abriu, pegou o gamão, pesado para ela, e foi até seu tio, sentou, na verdade, meio que "escalou" a cadeira aonde seu pai sentava e, sem dizer uma palavra, arrumou o gamão, peça a peça, e olhou para o seu tio.

Ele que a olhava sem falar nada, deixou cair uma lagrima de um dos olhos, a unica que viu seu tio derramar a vida toda, pegou os dados e jogou.

Jogaram toda a noite, até todos irem embora, não lembra, mas sua mãe disse que seu tio a pôs na cama, exatamente como seu pai fazia.

Toda quinta feira seu tio voltou lá, e toda quinta jogaram, até que ele não conseguia mais sair de casa, ai Bia é que passou a coloca-lo na cama, pois quase ninguém da família queria cuidar de seu tio, e continuaram a jogar, até que seu tio morreu.

Percebeu que estava silencioso demais, olhou e o Violoncelo estava em cima da cadeira, com o arco gentilmente posto sobre ele. Livia não estava mais na sala, levantou-se do colo de Karen, e perguntou:

_ Aonde ela foi ?

_ Livia foi embora, ela estava aqui por causa de seu sentimento de culpa.

_ Ela se acha responsável pelo cordial ?

_ Sim.

_ Ela é maluca ?

Karen riu.

_ Por que Beatriz, Livia seria maluca ?

_ Ela que obrigou ele a fazer as doidices, as maldades dele com os outros? Ela que mandou ele fazer o que ele faz? Mesmo que ela tivesse mandado, ela poderia fazer alguma se ele não quisesse ?

_ Beatriz, as vezes ouvimos as maiores verdades dos lugares mais improváveis.

_ Obrigada, eu acho...

Karen começou a guardar o violoncelo, pôs ele na caixa, com cuidado, depois o colocou nas costas, olhou para Beatriz e disse :

_ Ainda está aqui ? Não tem mais o que fazer?

ImperatrixOnde histórias criam vida. Descubra agora