Capítulo 5

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     "Não preciso ser legal e não preciso que outras pessoas sejam legais comigo."

     ― Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças

- Alô, Bel.

- Oi, Eric.

- Que coisa louca essa de você trabalhar para o Joni, não é?

- Muito louca. Até demais para o meu gosto. Por que você não me avisou?

- Você está surtando com isso.

Está na cara que sim. Pensei. Ele e o "Joni" devem estar achando que eu estou exagerando. Eu passei a faculdade inteira me esforçando para merecer ser bem-sucedida e nunca passar pela minha cabeça que consegui alguma coisa sem ser por minha mais pura dedicação. E agora isso. Trabalhando para o melhor amigo, quase irmão, do homem que eu amo de um jeito que nunca achei que amaria alguém. Sim, estou surtando.

Depois de dias ouvindo o Eric falar sobre como aquilo não deveria ser estranho, como era apenas um trabalho e uma grande oportunidade que eu não poderia deixar passar, acabei convencida.

Porém eu estava decidida a manter aquilo no patamar apenas profissional. Evitava a todo custo qualquer tipo de demonstração de intimidade com o senhor Miccelli no escritório. Ele percebeu o que eu estava tentando fazer já na primeira vez que me chamou de Bel no trabalho e eu respondi com um ríspido – Sim, senhor Miccelli.

Não tinha ninguém perto, ninguém mais ouviu e ele entendeu. Nunca demostrou qualquer intimidade entre nós na empresa.

Fora que, como eu tinha sido promovida, comecei a ter mais contato com ele nas reuniões de projeto e descobri que ele era um babaca. Ele não era mal educado com ninguém, é claro que não. Era um homem refinado, mas era ríspido e muito duro em seus comentários.

Naquele dia Gabriela faria a apresentação de um trabalho. O cliente, um milionário desses, era famoso por sua frota de carros. Ela se matou dia e noite fazendo um projeto para impressionar. Quando acabou de apresentá-lo o rosto do chefe já estava se contorcendo.

- E sobre a atenção especial que pedi para os carros de coleção? – disse ele duramente.

- Eh, eh, a garagem é subterrânea e ocupa todo subsolo da casa – disse a Gabi, já gaguejando.

- E você chama isso de uma atenção especial? Poupe-me. Refaça e se eu não aprovar o próximo você perde o projeto.

Precisa ser assim tão duro? Pode ser que o trabalho dela não tenha ficado assim tão especial mas existem maneiras e maneiras de se criticar alguém.

Quando a reunião acabou ela estava quase chorando sobre os croquis. Todos já estavam saindo e eu me aproximei dela. Dei uma olhada nos papéis.

- Qual o tamanho do terreno? – eu disse pensativa.

- É gigantesco, mas o cliente não quer uma casa muito grande. Só se preocupa com seus malditos carros.

- E se você projetasse um galpão anexo bem amplo para os carros? Podia ter todas as paredes de vidro e assim os carros ficariam expostos como numa concessionaria, sabe?

- Vou pensar nisso. – ela disse ainda um pouco transtornada.

Quando voltei para minha mesa recebi uma visitinha do nosso querido chefe.

- Eu vi o que a senhorita fez. Quando tiver uma opinião ou sugestão a exponha na frente de todos e não pelas minhas costas para que eu pense que foi idéia dela. Estamos entendidos?

Eu balancei a cabeça mas a mantive erguida. Olhei bem nos olhos dele. Que babaca, eu pensei.

- A propósito, foi uma ótima proposta. O projeto é seu agora. Pode dizer isso a senhorita Gabriela.

O cara tirou o projeto dela e ainda passou para mim a função de dizer isso a pobre coitada.

Que escroto. Opa, desculpem a palavra.

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