Capítulo 28

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 "Queria saber como me livrar de você"

           O Segredo de Brokeback Mountain


Meu pai voltou para Paris naquela semana. Ele dava aulas na universidade lá e não podia se ausentar por muito tempo. Eu compreendia.

No escritório as coisas entraram no lugar após a derrota do projeto perdido. Vários novos trabalhos apareciam e o todos estavam se esforçando ao máximo.

João, conforme prometido, contratou um novo estagiário para ser treinado por mim. Confesso que a velocidade com a qual ele encontrou alguém me fez repensar minha decisão de pedir demissão. Eu abriria mão de um emprego com prestígio. Deveria haver centenas de pessoas esperando por tal oportunidade e eu, ainda por cima, não tinha outro emprego ainda. Afastei esse pensamento para conhecer o novo estagiário.

Renan era muito jovem, ainda não havia se formado. Estava no último ano na faculdade. Era um homem mais baixo do que a maioria porém tinha um corpo robusto, coberto de músculos e tatuagens. Falava de uma maneira muito mais informal do que se esperaria de alguém em um ambiente de trabalho mas, pelo que percebi, aquilo era o seu charme.

Resumindo: não simpatizei com ele mas todos os outros o adoraram. Ele era um galanteador. Talvez fosse ciúme pela minha posição.

Pensando muito sobre isso acabei ligando para Susi, a ex chefe do Eric. Nós tínhamos nos falado quando ela entrou em contato logo após a morte dele. Precisava de alguns papéis que tinham ficado no apartamento. Resolvi tentar a sorte.

– Susi?

– Sim.

– Aqui é Isabel Mendes. Nos falamos há alguns meses.

– Sim, sobre os documentos do Eric. Como vai? Em que posso ajudá-la?

– Vou bem. Sou arquiteta e projetei alguns dos trabalhos de Eric. Gostaria de saber se vocês estão interessados em conhecer meu trabalho.

– Bom, nós não estamos contratando.

– Você aceitaria dar uma olhada sem compromisso. Posso passar os esboços por e-mail mesmo.

– Certo. Mas sem compromisso.

– Claro.

Enviei o material instantes depois da ligação terminada. A resposta não seria tão rápida quanto eu fui.

Minha total culpa.

O filme da semana foi A Primeira Noite de um Homem. Depois de conseguir fingir não estar super constrangida pelas cenas insinuantes inicio um diálogo total e completamente sem nexo.

– João...

– Sim, Isabel.

– E os seus pais? – digo assim que mais um filme termina.

– O que tem eles? – seu tom não é dos melhores.

– Te incomoda falar sobre isso? Se você não quiser, não precisa. É que eu sinto que deveria perguntar.

– Não é um dos meus assuntos preferidos mas, devido à natureza de nossa relação, acho adequado que isso seja exposto.

– Quanta formalidade. – brinco com ele – Preciso formular um memorando solicitando uma reunião?

– Desculpe. É claro que não. – ele se acomoda no sofá. Vira seu corpo de frente para mim e continua – Meus pais eram italianos. Eles se casaram e pouco depois meu pai veio trabalhar no país. E é basicamente isso.

– Nossa! Que grande livro aberto você me saiu. Não sei como farei para processar tanta informação. Vamos lá, Micelli. Desembucha.

– Eu lembro pouco da minha mãe. Ela morreu jovem.

– Lamento muito.

– Não lamente. Pelo que meu pai dizia, ela não valia grande coisa.

– Como assim?

– Minha mãe era uma namoradeira. Segundo meu pai era uma mulher lindíssima. Estava se engraçando com um bando de homens em uma cidade pequena da Itália. Meu avô arranjou o casamento com meu pai, que era encantado por ela, para corrigir a má fama que se espalhara no povoado.

Pelo que eu entendi não adiantou muito e meu pai a trouxe forçada para o país.

– Sério? E ai?

– Bom, ela continuou a ser quem era e acabou fugindo de volta para a Itália depois que eu nasci.

– Você nunca mais soube dela?

– Quando eu tinha uns dez anos meu pai contou que ela havia morrido de uma doença. Deve ter morrido na sarjeta pois meu avô não a aceitou de volta. Meu velho nunca me deu muitos detalhes.

– Que barra, João. E seu pai?

– Ele foi um grande pai. Não posso me queixar. Mas depois que soube da morte da minha mãe nunca mais foi o mesmo.

– Como assim?

– Ele se tornou uma pessoa amarga. Parecia não sentir qualquer prazer na vida. Era triste vê-lo viver sem que nada o impressionasse ou o maravilhasse. Sei lá. Acho que minha mãe o destruiu.

– Ele nunca se casou novamente?

– Não. Ele costumava dizer que nunca cometeria o mesmo erro duas vezes.

– Nossa, um pouco extremo, não?

– Eu acho que ele tinha toda a razão. Não faz sentido arriscar-se de novo em algo que já não deu certo.

– OK, então.

Havia muita certeza em suas palavras. Eu não tinha como contra argumentar aquilo. É claro que o pai dele pensaria diferente se tivesse se apaixonado novamente , mas não tinha como fazer João entender aquilo.

– Boa noite, senhotita Mendes.

Acho que minha curiosidade o chateou. Ele levantou-se e foi até a porta.

– Boa noite, senhor Micelli.

Naquela noite eu não dormi nada.


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João sofre de "mommy issues"? O que acham?

Obrigada por acompanharem mais um capítulo.


Beijocas.

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