Capítulo 43

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 "Você vai precisar de um barco maior."

                                       Tubarão




"O sustentável agora é Chic. Veja como Isabel Mendes tornou o reciclado fashion!"

  "Filha de peixe? Isabel Mendes, filha de Alberto Mendes, ascende no cenário da                                                                                 arquitetura."

"Como uma jovem arquiteta saiu do anonimato e tornou-se o nome do momento."

  "Entrevista com Isabel Mendes: a arquiteta das estrelas."



Eu tive sorte.

Trabalhei muito. Dediquei-me de corpo e alma, só para não ter que pensar nele. Eu tinha perdido tudo, só tinha minha profissão para me agarrar, mas tive sorte.

Tive sorte de ser filha de quem sou, de ter conseguido um emprego que me ensinou muito na Miccelli e Associados e, acima de tudo, tive sorte de ter tido Eric na minha vida.

O projeto dele me alavancou. O mérito é todo dele, e ele está morto. Agora eu tenho meu próprio escritório. Em parceria com o grande Alberto Mendes, é claro. Não conseguiria dar conta disso tudo sozinha.

Então eu alcancei tudo que queria: Sucesso na profissão. Mas do jeito que eu mais desprezava: as custas de outras pessoas.

E eu estava miserável.

– Parabéns, Bel. Você é muito boa mesmo. - diz, Paula excessivamente animada. - E essa roupa? Está um arraso.

Ela estava falando de uma saia azul justa de cintura alta muito agarrada ao meu corpo, combinada com uma belíssima, e cara, camisa branca de seda. Era como eu me vestia agora. Roupas caras e austeras, coladas ao meu corpo um pouco magro demais.

– Obrigada, Paula. – digo secamente. Há algum tempo não consigo nem tentar fingir qualquer empolgação.

– Poxa, Bel. Você ganhou um prêmio! Não está animada.

– Não, ela não está. Está muito comprometida com seu próprio infortúnio. – o tom de Carol deixou claro que ela iria bem além disso. – Você foi usada, Isabel. Precisa de alguém em sua cama. O João com certeza já tem alguém na dele.

– Não fala assim, Carol. Ela...

– Não, Paula. Deixa ela falar. – eu sabia que aquilo estava para acontecer. Eu precisava ouvir.

– É isso mesmo, Isabel. Você está fechada no seu mundinho de sofrimento e tristeza da garota abandonada que é incapaz de se sentir feliz pelo menos por seus amigos.

Carol estava magoada. Ia se casar e eu recusei o convite para ser madrinha. Eu sei. Sacanagem, não é? Ela vai dizer o que eu sou logo mais.

– Está miserável e quer que todos se sintam assim também. Você é uma megera. Uma vaca!

– Meu Deus, Carol. – grita Paula, enquanto minha ex amiga vira as costas e sai batendo os pés.

Continuo parada com minhas mãos em meus quadris, impassível. Infelizmente não consigo me impedir e minha alma amarga se manifesta em minhas palavras ferozes.

– Eu sabia que seria xingada assim mais cedo ou mais tarde, mas eu achava que seria por você, Paula. – digo lhe apontando um dedo.

Ops. Mais um fora.

– Você é uma ridícula, Isabel. É uma megera mesmo. Adeus.

Pronto! Eu havia completado minha ruína. Agora eu não tinha mais ninguém.


Alguns dias eram melhores

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Alguns dias eram melhores. 

Eu acordava cedo, corria. Ia trabalhar. Fica extenuada. Respondia convites de trabalho, revisava alguns projetos com a minha equipe, participava de entrevistas e sessões de fotos. Ia para casa e, na escuridão, acabava desligando.

Porém haviam dias terríveis. Neles era muito difícil me levantar da cama. Era difícil até abrir os olhos. Eu chorava e me escondia em casa. Ligava no escritório e avisava que não iria e ninguém me questionava. Quando meu pai me procurava eu dizia estar bem, inventava uma visita a alguma obra e depois, no final do dia, me sentia inda pior por ter mentido.

Meu celular tinha quase se tornado um enfeite. Há dias não tocava, mas, de repente, voltou a vida.

– Alô

– Isabel? Aqui é Débora, a mãe do Eric?

– Ah... Oi, tudo bem com a senhora?

– Tudo bem, querida. Eu e o Marcelo estamos bem. Superando. E você, como vai?

– Vou bem.

– Nós estamos com saudades. Você era muito especial para o nosso Eric e é para nós também.

Embora fosse muito estranho, completamente inesperado e um pouco suspeito aquele contato me tocou e eu perdi um pouco o controle das palavras.

– Eu ganhei um prêmio. - disse, quase que infantilmente, desesperada por qualquer tipo de carinho.

– Que bom para você, querida. – como seu eu fosse uma criança que ganhou uma estrela dourada na escola, Débora respondeu com condescendência.

Pigarreio para recuperar o controle.

– Na verdade um projeto meu foi premiado. Ele foi baseado em algumas idéias que o Eric estava desenvolvendo. Eu me sentiria muito prestigiada se vocês fossem à premiação.

– Com certeza, Isabel! Marcelo e eu vamos adorar.

– Certo. Depois passo os detalhes por mensagem para vocês.

– Muito bem, nos vemos então. Um beijo, minha querida. Cuide-se.

Aquilo acalentou um pouco meu coração. Algumas pessoas talvez se importassem comigo. Com o que eu sinto ou como lido com tudo isso.

Certo.

Por algum motivo penso em João.

Talvez seja hora de libertá-lo de meus pensamentos. Hora de me perdoar por ter quebrado nossa promessa e me insinuando para ele. Eu lamento ter sido tão vulgar.

Ele se foi e tenho que aceitar isso. Eu o amo, quero o melhor para ele, e vou ter que lidar com mais essa perda.

Ha, ha, ha... eu queria ser assim tão madura. Isso tudo não seria tão facíl de engolir. Não depois de certas revelações.

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