Capítulo 22

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                                                                         "Bem, ninguém é perfeito!"

                                                                                                 Quanto Mais Quente Melhor


Na sexta-feira, ao analisar a lista dos filmes acabei ficando um pouco tensa. Os filmes permitidos para criança, por assim dizer, estavam ficando raros.

O interfone tocou anunciando o tal do João, de acordo com o Zé. Ele continuava desconfiado em relação ao meu visitante.

Quando abri a porta não consegui evitar a surpresa.

– Hoje sou só eu. - disse o pai sem os filhos.

– Tudo bem. Entre, por favor.

Ele me pareceu exausto. Tinha um semblante preocupado mas não me senti a vontade para perguntar qual era o problema. Sentou-se no sofá e esfregou várias vezes a mão pela testa como se estivesse tendo uma forte enxaqueca.

– Vinho?

O que mais eu poderia oferecer? Um analgésico talvez?

– Sim, por favor.

Enchendo as taças decidi iniciar um diálogo para tornar as coisas menos difíceis.

– João, eu estava olhando a lista dos filmes e como hoje não temos as crianças podíamos assistir ao Touro Indomável. O que acha? – digo entregando-lhe a taça preenchida com o lindo líquido bordô.

Ele dá de ombros.

– É uma obra prima de Martim Scorcese. Bom, é o que dizem. O Robert de Niro ganhou um Oscar com esse filme.

– Qualquer coisa.

Movida por toda essa "empolgação" do meu parceiro, ligo a TV e ponho o filme para rodar.

O filme começa com a sombra de um ringue em preto e branco e os créditos aparecendo em letras brancas que parecem tremer na tela. O filme não era tão antigo mas era feito para parecê-lo. A música, as vezes fora de compasso, completava a sensação degradação.

O personagem de Robert, Jake LaMotta, é um homem de humor psicótico e caráter duvidoso porém de certa maneira talentoso no boxe o que gerava um sentimento ambíguo. As tomadas coma câmera fixa também gerava certa agonia em meus pensamentos. E, enquanto o sangue negro se espalhava em uma das cenas em que o personagem leva socos em um ringue, João também desferiu um golpe.

– Vou perder a guarda das crianças – ele diz subitamente tirando-me da fantasia holiwodiana.

– Não é possível. – digo indignada.

Alcanço o controle remoto com pressa e pauso o filme.

– Meu sogro é um juiz muito influente. Não tem como eles perderem.

– Mas isso é um absurdo. Você é o pai deles.

Seu rosto tomou uma forma enigmática e misteriosa.

– João, o que você não está me contando?

Ele hesitou mas estava claro que ele queria falar sobre aquilo.

– Isabel, o meu relacionamento com a Raquel foi algo bem diferente do que se pode considerar uma história de amor.

Eu não disse nada, por isso ele continuou.

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