'' ... porque, quando você se dá conta de que quer passar o resto da sua vida com alguém, você quer que o resto de sua vida comece o quanto antes.''
Harry e Sally
Mais duas semanas se passaram na mesmice. No banco de dia, lutando por um emprego na minha área pela tarde. Mas, num belo dia, me vi chegar de mais uma entrevista e encontrar, mais uma vez, a dispensa vazia. Afinal, uma baguete, mesmo sendo a maior do mundo, não dura para sempre. Tinha que ir ao mercado de novo mas hoje com um espírito diferente.
Pela primeira vez em muito tempo tinha sido elogiada em uma entrevista. O chefe da empresa, João Miccelli, um jovem engenheiro prodígio - pelo que tinham me falado- me encheu de esperanças. Embora a vaga já estivesse preenchida ele garantiu que me conseguiria um estágio.
João Mi-que-lli, é assim que se pronuncia. É italiano. Legal, né.
Então fui até o mercado, mas não para me anestesiar com sorvete. Pensei em pegar um vinho e talvez umas fatias de presunto cru. Para tão pouca coisa não precisaria de um carro de compras. Uma cestinha daria conta, mas quando percebi já estava entrando na loja com o carrinho.
Fui direto aos vinhos. Escolhi um seco da uva que mais gosto: a tannat. Coloquei a garrafa no carrinho e o deixei ali para ir até a sessão de frios. Perdi um certo tempo escolhendo o que queria e quando voltei, ao lado do vinho, havia uma baguete, talvez até maior que aquela outra, em meu carrinho.
Primeiro pensei que não era o meu carro de compras mas depois vendo meu vinho ali senti que alguma coisa estava acontecendo. Fiquei ali encarando aquele pão com as mãos na alça do carrinho.
- Era a última.- disse uma voz atrás de mim- Peguei para garantir, já que são uma grande conquista para você: as baguetes.
Virei e lá estava ele sorrindo. Tão lindo quanto antes. O homem da SUV.
- Acho que hoje vou passar a baguete. É muito pão para uma pessoa só - eu disse sorrindo.
- Bom, então eu acho melhor devolver. Senão, vamos tirar de alguém o privilegio de tão belo pão.
- Certo.- achei engraçado o jeito dele.
- Esse vinho é para uma pessoa só também?- ele me perguntou enquanto delvolvíamos o pão.
- Sim, por que? -Respondi tão rápido que nem percebi que estava me entregando para um estranho. Tipo: sim, sou sozinha mesmo.- Você é algum tipo de sommelier? Entende de vinhos?
- Não. De jeito nenhum. É que se você vai tomar isso sozinha para comemorar, é um pouco triste. Por outro lado, se for tomar sozinha para afogar alguma mágoa, não é certo.
- Sério? Por que você acha isso?
- Acho que comemorações só valem se podemos dividi-las com alguém, senão perdem o propósito. E ninguém deve estar sozinho enquanto bebe para superar algo. Isso é fato. Pode ser perigoso.
- Nossa! Como se chama esse filósofo que está aqui na minha frente?
- Meu nome é Eric. E então...- ele deu uma pausa para que eu dissesse meu nome-
- Isabel.
- Então, Isabel. Está comemorando ou lamentando?
- Estou comemorando. Quer dizer, mais ou menos.
- Enquanto você decide por que vai tomar o vinho, não quer tomar um café comigo?
- Por que eu iria tomar um café com você?
- Por que não iria?
A segurança com que as palavras saiam dele me encantaram. Por que eu não iria? Beber uma garrafa de vinho sozinha... Bem não sozinha, com algumas eventuais baratas, seria essa minha melhor opção?
- Está certo, então. Vou devolver essa garrafa e vamos tomar um café.
Devolvi a garrafa e caminhamos até a saída.
Logo na esquina ficava a boutique de pães da dona Graça. Já tinha sido uma padaria mas ha alguns anos ela modernizou o lugar e o transformou em uma cafeteria. Ele apontou para lá.
- Podemos ir ali? É bem perto.
- Claro, por que não?- eu disse. Achei interessante ele encontrar um lugar tão rapido.
Caminhamos na direçao do estabelecimento.
- E então, Eric, o que você faz?- disse logo para não dar espaço a aquele silêncio constrangedor. Mais tarde eu perceberia que isso nunca seria um problema para nos dois.
- Sou engenheiro, e você?
- Sou arquiteta. Recém-formada. Ainda não trabalho na área.- eu disse um pouco constrangida.
- Os primeiros anos depois de formado são um pouco difíceis mesmo. - a doçura daquelas palavras de incentivo me fizeram sorrir.
Entramos no café. A proprietária do estabelecimento estava no caixa.
- Oi, dona Graça. - cumprimentei, já a conhecia há anos, desde pequena, afinal cresci naquele bairro.
- Oi, Bel!- ela respondeu- Como vai sua mãe?
- Bem, obrigada, dona Graça.
– E você, Eric? Como vai?- disse ela, enquanto meu queixo caia.
- Muito bem, dona Graça. Obrigado por perguntar.
- Faz tempo que não vejo sua mãe- retrucou a senhora.
- Eles se mudaram, agora eu estou morando sozinho no apartamento. Mudei a duas
semanas.
- Você estava no exterior, não é? - a Graça sempre foi assim um pouco intrometida.
- Sim. Voltei faz uns cinco meses já.
- Que bom, garoto! Espero que continue meu cliente como seus pais.
- É claro! Inclusive, para prestigiar a senhora- disse ele todo galanteador- Trouxe a Bel - como se fossemos íntimos - para tomarmos um café.
- Que bom, meninos. Sentem-se ali- apontou a senhora- Como querem o café?
- Puro - falamos juntos.
Enquanto conversávamos, falando de amenidades o celular dele toca. Ele olha a tela e ignora a ligação.
- Esse seu toque do celular – eu digo.
- O que tem?
- Você apenas gosta da música, ou
- O que? Isso é AC\DC
- Eu sei. Back in Black.
- Você conhece a banda? - Ele está surpreso.
- É claro que sim.
- Ah, é? -ele estava definitivamente desconfiado. - Prove.
- Back in Black é uma musica de 1980 que eles escreveram para o álbum de retorno depois da morte do Bon Scott.
- Certo. A bela garota conhece o bom rock clássico. Acho que vamos nos dar muito bem.
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Os Cem Melhores Filmes
RomansaIsabel é uma jovem independente e determinada que encontra seu verdadeiro amor. Porém, isso tudo é colocado em xeque quando ela perde Eric e precisa recuperar sua confiança e esperança com a ajuda de alguém que não contava. =========================...
