Capítulo 31

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" Existe uma explicação para isso, você sabe."

Alien: O Oitavo Passageiro.



– Olá, Isabel. Faz tempo que você não vem as consultas. - diz Daniela me repreendendo.

No começo as conversas com Daniela me incomodavam, mas com o passar de tempo passei a apreciá-las.

– Pois é, doutora Daniela. Eu lamento muito. Estive muito ocupada.

– Apenas Daniela, por favor. Mas estou curiosa. O que a fez encontrar algum tempo?

Não fiz rodeios.

– Há algumas semanas venho sentindo uma ansiedade. Uma angustia, as vezes um desanimo em relação a tudo. Tudo está indo bem. Bom, nada é sempre perfeito, mas não sei o que tanto me incomoda.

– Talvez a data do aniversário do acidente de vocês que se aproxima?

Click! Não é só esse aniversário que me incomoda.

– Pode ser. – digo.

– Eu questionei João sobre isso na última consulta – não sabia se ela falar tanto do João para mim era muito profissional mas não a impedi. – e ele ficou incomodado.

É claro. Quem não ficaria?

– O lembrei que depois desse ano ele deveria pensar em retomar a vida pessoal, conhecer alguém, refazer a família dele.

Que incherida, não é a toa que o João não gostou.

– O mesmo vale para você, Isabel. Um ano se passou. Outro ano vai passar, e ainda muitos outros. O tempo passa, temos que aproveitar as boas coisas e não as ruins, certo?

– Verdade.

– Então você não deve lamentar o dia três de março e sim festejar o dia quatro: seu aniversário.

Por que não enfia uma faca no meu peito de uma vez?

– Isabel, nós já não comemoramos ano passado!

– Talvez porque eu estivesse em coma, mãe.

– Não seja desagradável.

– Desculpe, mas você sabe que eu nunca gostei muito de fazer aniversário.

– Sei, sim. Você pode pelo menos jantar comigo e com seu pai?

– Claro que posso.

– Combinado então.

Era sexta-feira e fazia um ano desde aquela noite fatídica. No escritório ninguém comentou nada e eu não estava certa se era proposital ou aquelas pessoas nem se davam conta. Provavelmente não faziam idéia. Afinal, por que lembrariam disso? A equipe mesmo havia mudado muito. Acho que apenas Ângela estava na empresa na época do acidente.

João também não tocou no assunto, e não era eu a mudar isso. Estávamos revisando alguns papéis na sala dele quando ele perguntou:

– Qual filme veremos hoje?

Expirei profundamente sem conseguir esconder meu alívio em saber que não estaria sozinha naquela noite.

– A Lista de Schindler. – digo.

– Pesado. – ele responde.

– Muito. – concordo.

Durante o filme, mais tarde naquela noite, não consigo evitar pensar sobre o acidente. Aquela história real me fez pensar sobre a magnitude de certas tragédias. Vidas destruídas por tirania, vidas que se encerram por acidente.

" Haverão gerações graças ao que você fez." diz Itzhak Stern a Oscar Schindler.

No final do filme nos olhamos com pesar. Nenhum de nós disse nada mas sabíamos que aquele sentimento pesado não vinha só do filme. Meu rosto se contorceu e balancei a cabeça desolada e impotente. João se aproximou e me envolveu em seus braços. Um abraço de cumplicidade. Não havia nada além disso que se poderia fazer. A tragédia havia aniversariado e isso ainda iria acontecer por anos a fio.

– Você acha que poderia faltar a aula de canto amanhã? – pergunta João, após um longo tempo de silêncio. Enquanto ainda estamos abraçados.

Soltar-me dele incomoda, mas o faço finalmente.

– Só por um bom motivo – digo me esforçando para parecer animada e dissipar a névoa de pesar.

– Gostaria de ir comigo amanhã ao treino de rugby?

– Eu adoraria!

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