Capítulo 38

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 " Você recebe o que merece"

Thelma e Louise

E as coisas não iam bem.

No escritório, todos estavam à deriva. Renan, o estagiario insuportavél, passava o dia entrando e saindo da minha sala sem ser anunciado. Sentava-se em cima da minha mesa e dizia coisas extremamente informais, como se fossemos amigos antigos. Isso me irritava muito mas eu estava impotente. Não era a chefe dele. Se o fosse ele já estaria no lugar dele.

Quando ele me deixava em paz vinha Ângela cheia de perguntas indiretas e especulações sobre o paradeiro do senhor Micelli, das quais eu me esquivava como podia. Por que passaria pela cabeça dela que eu sabia mais sobre ele do que qualquer um lá? Eu era, na verdade pessoa, que ele evitaria com mais afinco.

Os ensaios da banda estavam me deixando tensa. Eram músicas muito diferentes do estilo que eu estava acostumada. Algumas nunca havia ouvido na vida. Estava muito preocupada em fazer papelão, não só na frente dos rapazes, mas para um público.

Isso estava cada vez mais próximo de acontecer já que meus companheiros não viam um só erro em qualquer uma de minhas performances nos ensaios. Eram elogios e mais elogios. Falsos, todos falsos.

E, naquela noite, eu ainda teria que enfrentar a Paula. Ela tinha acabado de descobrir sobre o sumiço do João.

– Não é possível, Isabel. Como ele pode sumir desse jeito? Isso é muito estranho. Ele vai voltar.

Não, não vai.

– Um amigo não pode sumir desse jeito. Do nada.- ela não iria deixar aquilo passar. Ia insistir até saber de tudo.

– Alguma coisa aconteceu, Isabel. Você tem que procurá-lo. Ele pode estar com algum problema.

Não aguentei. Eu explodi.

– O problema dele é que eu o beijei. – digo indignada.

– Isso muda tudo! – diz Paula escandalizada.

– Não muda nada. – diz Carol, minha sempre presente defensora, irritada – Não existe motivo algum que justifique sumir desse jeito. Se ele não queria nada romântico com a Bel tinha que ficar e resolver isso como um homem.

Era isso mesmo. Ele não estava interessado em um relacionamento comigo. Eu sabia disso, mas ouvir aquilo dito em voz alta me fez sentir muito mal. Eu era só mais uma mulher que se encantou por ele quando ele precisava de um amigo. Eu me sinto repugnante

– Você já sabia disso, Carol?

– Sabia, Paula.

– Eu não te contei porque sabia que você ficaria com raiva dele – digo, ainda ruminando minha culpa.

– Raiva? Eu estou furiosa com ele. Quero caçá-lo até o inferno e trazê-lo de volta para se desculpar.

Só a Paula para me fazer rir.

– Você vai superar, Isabel. Lembra o que você me disse quando eu terminei com aquele traste do César? "Você estava indo bem antes dele, Carol. Não precisa dele para continuar. Ele não vale a companhia"

A companhia de João, no entanto, valia muito.

A verdade é que ele se foi porque conseguiu superar a perda. Era a única coisa que nos mantinha juntos. A dor compartilhada. Agora ele apenas sente saudades e não é conveniente que eu esteja ao lado dele. Pode parecer cruel e frio, mas eu o entendo. Ele não quer mais pensar nisso. Quer seguir em frente e eu sou apenas mais uma mulher vulgar que se jogou sobre ele e ainda por cima é uma constante lembrança do amigo que ele perdeu junto com sua esposa.

Essa era a verdade.

– Certo. – desconversei.

– Serio, Isabel. Você é jovem, linda e insuportavelmente inteligente. Vai dar tudo certo.

– Eu espero que sim.

Do fundo do meu coração.

– Vamos indo então porque a estrela principal não pode se atrasar. – Carol levanta-se pegando minha bolsa e me fazendo sair do sofá.

– Estrela principal? Eu vou só cantar uma única música em um piano bar para meia dúzia de pessoas. Tem certeza mesmo que vocês querem ir?

– Não perderíamos isso por nada no mundo.

Eu faria uma participação em apenas uma música para começar. O publico estava acostumado com o som apenas dos instrumentos e o Edu achou melhor começar de vagar.

As meninas se sentaram em uma mesa, e eu fiquei encostada no bar mais próxima do palco esperando minha deixa.

– Cuide dela para mim. - disse Eduardo para o barman um pouco antes de subir no pequeno palco.

– Pode deixar! Aceita uma água? - diz muito galanteadoramente meu novo "guardião".

– Por favor.

– Eu sou o Heitor, barman. Muito prazer. - diz ele deixando um copo e a garrafa de agua mineral na minha frente.

– Isabel, aspirante a cantora. Prazer em conhecê-lo. – digo chacoalhando sua mão.

Eu estava uma pilha de nervos.

– Fica tranquila, Isabel. O publico aqui é muito ... como posso dizer: Dócil.

– Certo.

Alguns minutos depois, Eduardo me apresentou para os ouvintes. A única manifestação foram as palmas constrangedoras apenas da Paula e da Carol que, envergonhadas, pararam logo com aquilo.

Respirei fundo, subi no palco e cantei a música selecionada por Eduardo.

Some One to Watch Over Me de Ella Fitzgerald.

Não errei uma nota. Fiquei muito satisfeita comigo mesma. Orgulhosa mesmo. Algo que não acontecia ha algum tempo. Mas, depois que a última nota no piano encerrou a música, o silêncio foi cortante. Nenhum dos ouvintes sequer se manifestou. Um homem levantou-se e foi embora. Os outros continuaram tomando seus drinks e checando seus celulares como se nada tivesse acontecido.

Desci do palco de volta para o bar. Minha garganta tinha secado como se eu tivesse engolido areia.

– Mais uma água, por favor Heitor.

– Aqui está. Não falei que o publico é dócil.

– Apático seria uma melhor definição.

– Pelo menos não há criticas. Mas você não precisaria se preocupar. Foi muito bem.

– Obrigada.

– Obrigado a todos pela atenção. Boa noite.

Foi Eduardo se despedindo da "calorosa" audiência. E então, pulou do palco na minha direção.

– Você estava fantástica, Isabel. Parabéns.

– Acho que o pessoal não achou tão bom, não.

– Não ligue para eles. - diz Carlos se aproximando enquanto terminava de guardar os pratos da bateria em uma bolsa. - São sempre assim.

– É – completa Getúlio – Eles não aplaudem mas estão sempre ai. E nos elogiam nos questionários que o hotel faz. Para nós está bom assim.

– Se está bom para vocês está ótimo para mim, rapazes.

– Esse é o espírito! Gosto muito dessa garota, Edu!

– Eu também. - diz Eduardo piscando para mim.

– Você arrasou amiga! - Paula estava histérica. - Você vai ser famosa!

– Não exagera, Paula.

– Você foi muito bem mesmo, Bel. - diz a sempre contida Carol- A música era muito linda, também.

– Obrigada, gente. Valeu pela força. Boa noite.

E, então, depois dessa noite agitada, estávamos finalmente somente eu e minha insônia rolando na cama, uma atazanando a outra.



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