Capítulo 40

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" Foi você, Fredo. Você partiu meu coração"

O Poderoso Chefão 2

Naquela noite eu dormi como não dormia a tempos. Acordei disposta, e o dia a minha frente, cheio de promessas, me empolgava. Ele estava de volta. Eu estava completamente certa disso. Aquilo era apenas um grande mal entendido. Tudo ia ficar bem.

Vesti uma linda saia lápis cinza nova e uma blusa de cetim vinho, minha preferida. Deu atenção especial ao meu penteado em um coque alto. Meus cabelos não recebiam tanta atenção de mim a um certo tempo. Para completar me maquiei com perfeição.

Cheguei cedo ao escritório mas a agitação já havia começado. Caixas empilhadas por todos os lados e funcionários de uma empresa de transporte passavam de la para cá carregando computadores. Eu estava um pouco perdida naquela movimentação quando vi Angela se aproximando com seu bloco de notas nas mãos.

– Isso tudo é muito louco. - disse ela com certa empolgação.

– O que é muito louco, Angela?

– O escritório vai se fundir com uma empresa internacional.

– O que? – Ela continuo sem dar a menor importância a minha surpresa.

– E nós vamos receber aumento! -

A senhora de meia idade afastou-se dando pulinhos de alegria. Eu balançava a cabeça incrédula com as mãos apoiadas em meu quadril. E enquanto a observava se afastar senti uma presença atrás de mim.

– Senhorita Mendes?

Era uma voz grave, impactante e não menos impressionante do que a figura que a portava. Virei-me e estava cara a cara com um lindo homem negro e muito alto. Seu sorriso exibia grandes dentes brancos e seu rosto era amigável além de muito belo. Estava impecavelmente vestido e parado na minha frente esperando uma resposta.

– Sim, sou eu.

– Eu sou Samuel Becket. Prazer em conhecê-la. - ele me estendeu a mão. Suas palavras eram enfeitadas por um forte sotaque. - Estou aqui em nome do senhor Micelli. Vim para lhe deixar a par das condições nesta nova fase da empresa.

– Desculpe-me – as palavras se embolavam em minha boca enquanto eu me dava conta do que estava acontecendo. - O senhor trabalha para ele?

Ele se remexeu um pouco, colocou as mãos dentro dos bolsos de sua calça social e sorriu, antes de humildemente explicar quem ele era.

– Não. Eu sou o presidente da empresa com a qual vocês estão se fundindo. É uma empresa americana ainda pequena mas temos um trabalho muito promissor.

– Ah, claro. Desculpe-me.

– Não há do que se desculpar. Bom, a sede da empresa vai continuar nos EUA de onde eu e o João vamos comandá-la. Porém vamos manter o escritório aqui e o senhor Micelli tem como intenção torná-la a diretora executiva desse ponto.

Eu estava perplexa, quase sem reação, mas minha resposta reflexa não me decepcionou.

– Não, obrigada. - digo cruzando os braços sobre meu peito. A atitude pode parecer desafiadora mas eu estava apenas tomando uma posição defensiva.

Ele novamente mostrou seus lindos dentes brancos.

– O João mencionou que você diria algo assim mesmo.

Ah, o João disse?

– Por isso estou autorizado a oferecer o cargo do próprio Micelli a você: A vice presidência da empresa. A remuneração é claro se torna bem mais robusta. A senhorita deve estar ciente disso. É uma proposta muito generosa. - ele enfatizou o muito e eu não ia deixar barato.

– Claro que é, pois minha resposta passa então a ser: Não, muito obrigada. - também valorizei o muito. - e eu me demito. Prazer em conhecê-lo.

Virei as costas e como um robô organizador entrei em minha sala recolhi tudo em um caixa e sai do escritório sem olhar para trás.

De alguma maneira eu sabia que nunca voltaria a entrar naquele lugar.

Depois da adrenalina liberada pelo impacto inicial, ao chegar em casa, comecei a cair em mim. O silêncio do ambiente e o peso da caixa em minhas mãos fizeram com que eu me desse conta do que acabara de acontecer.

Um cansaço profundo tomou conta de mim. Larguei a caixa no meio da sala. Caminhei até o quarto me esforçando para não arrastar os pés e tropeçar. Comecei a me despir tirando devagar a blusa de cetim e então não havia mais força para a saia.

Deitei meu corpo sobre a cama e me encasulei trazendo minhas pernas para perto de meu peito. No começo era apenas para me sentir protegida mas com o passar do tempo serviu para amenizar o frio já que eu estava deitada com o peito vestido apenas por meu sutiã.

Fiquei num estado entre o sono e a consciência. Na verdade não me lembro de ter dormido de fato mas me lembro de ver a luz do sol pela janela desaparecer e surgir duas vezes. Não me lembro de ter pensado em nada ou de ter ouvido qualquer som.

Só voltei a mim quando me senti sendo levantada e abraçada com força.

– Isabel, meu bem. O que está acontecendo? Eu estava tão preocupado. Você ficou dois dias sem sabermos de você.

O contato da pele quente de outra pessoa me faz voltar vagarosamente para a realidade.

– Pai?

– Sim, minha flor. Você está bem?

– Por que vocês sempre fazem isso, pai? - digo sem emoção em minhas palavras.

– O que nós fazemos, querida?

Meu pai usa um tom condescendente e me balança em seus braços como uma criança.

– Vocês sempre me abandonam.

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