Confio Nela

59 20 10
                                        



 Consigo colocá-la em meu carro bem cedo. Isso vai dar mais tempo aos outros.

Treino em uma cidade do interior, então tenho umas boas duas horas sozinho com ela.

A sensação de tê-la em meu carro é excitante. É como se ela fosse minha. Como se eu pudesse levá-la para qualquer lugar. Para uma outra vida, sem passado.

No meio do caminho ela adormece. Estou dirigindo mas a vontade que sinto de tocá-la é muito grande. Num certo momento ela começa a fazer sons como de um pequeno bebê. Certamente está sonhando e finalmente posso concretizar meu desejo.

Toco levemente em seu braço.

– Isabel, já chegamos.

– Ah, oi! Já chegamos?

– Sim. – eu acho graça e me lembro do dia que em que ela dormiu no sofá de casa.

Nós saímos do carro eu faço um tour rápido com ela pelo local. Mostro a arquibancada e ela se senta.

– Vou me trocar no vestiário. O treino já vai começar.

– Mal posso esperar! – ela parece realmente ansiosa de uma maneira boa. Alegro-me em vê-la menos tensa que nos últimos dias.

Ela não tira os olhos da bola e eu não paro de olhar para ela. Logo isso se torna um problema. Meu desempenho não é o mesmo mas eu não me importo. Ela está aqui comigo.

Num certo momento agarro a bola e enquanto me desloco sou bloqueado por um jogador do outro time. O choque é muito forte, provavelmente porque estou desatento, e eu desabo no chão com um cara de cento e vinte quilos por cima de mim.

– Ah! – não consigo segurar o grito de dor. Isabel se levanta preocupada.

Marcos me ajuda a sair do chão.

– Cara, você está muito aéreo hoje.

– É, eu tenho estado muito cansado. Gente, para mim já deu! Estou parando.

Os outros também decidem que já treinaram o bastante. O sol está alto e Isabel procurou uma sombra ao lado da arquibancada.

Vou até o banheiro e levanto a camisa temendo o que vou ver. Caí sobre uma pedra no campo e havia um corte em minhas costelas. Doía como o fogo do inferno mas aquilo não iria me deter. Eu tinha planos. Lavei o ferimento no banho da melhor maneira possível. Assim que me troquei fui ao encontro dela. Seu rosto estava tenso.

– Meu Deus. Você está bem, João?

Adoro quando ela fala meu nome.

– Estou sim, por que?

Finjo desdém mas estou prestes a vomitar de tanta dor.

– Foi uma queda feia.

– Está tudo bem. – mas na hora que coloco minha mala no ombro solto um gemido involuntário.

– Não está bem não. Deixa eu ver.

Ela vem para cima de mim. Eu adoraria ter seus dedos erguendo minha camisa e tocando minha pele mas não há tempo para isso.

– Para com isso, Isabel. Já disse que estou bem.

– Sei.

Acho que vou conseguir levar o plano adiante  mas na hora que entro no carro a dor me derruba.

– Pode ir saindo daí, senhor Miccelli. Eu vou dirigir. Sente-se ali no passageiro. Vou te levar para um hospital agora!

Com aquela dor não seria seguro dirigir por duas horas. Aceito ser conduzido mas não a assistência médica.

– Quando chegarmos na cidade eu passo no hospital. Está bem assim?

Ela está nervosa mas eu vou vencer.

– Já aceitei que você seja a motorista. Isso já é muita confiança. Pode ser mais arriscado do que um arranhão nas costelas.

Ela acha graça e eu relaxo.

– Sou uma ótima motorista, para sua informação.

Eu já sabia disso. O Eric tinha me contado.

E eu confio nela.

Totalmente.

Os Cem Melhores FilmesHistórias para pegar e não largar. Descubra agora