Capítulo 48

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" De todas as espeluncas dessa cidade, ela vem aparecer bem no meu bar"

Casablanca

O vento frio do ar-condicionado que tocava minhas costas nuas me incomodava profundamente. Ele fazia meu corpo arrepiar e meus músculos se contraírem. Era torturante e talvez não tivesse nada a ver com a temperatura.

– Outro, Heitor!

– Assim não vai conseguir cantar, princesa.

Eu o fulmino com o olhar. Estou sentada ao lado do balcão do piano bar. Bebendo uísque e tentando acalmar meus nervos. Assim que terminei meu discurso João fez o que faz de melhor: foi embora. A mim só restou me preparar para a canção desta noite.

– Foi mal, Bel. Aqui está. – diz o barman colocando outro copo com a bebida dourada na minha frente.

Tomo um gole e me remexo na banqueta alta. Hoje vou cantar a música que escolhi. Coloquei uma linda blusa de cetim preta que tem um decote profundo nas costas. Na parte da frente ela é conservadora e discreta. É como eu : segura se você mê encara mas por trás, completamente desarmada.

Depois do segundo gole da segunda dose o frio já não me incomoda.

– Não olhe agora, mas tem um cara parado ali na entrada que não tira os olhos de você há uns quinze minutos.

Sinto mais um arrepio. Realmente eles nada tinham a ver com o vento frio.

– Eu sei quem é, Heitor. – digo sem precisar olhar para trás.

Eu sinto a presença dele.

– Quer que eu chame os seguranças?

– Não. Está tudo bem. – eu tenho que lidar com isso sem ajuda de dois brutamontes. Sem a ajuda de ninguém.

– Espero que você esteja certa porque ele está vindo para cá.

– Boa noite. – diz João se aproximando. – Posso sentar?

Aponto a banqueta vazia ao meu lado. Não digo uma palavra. Nem olho para ele.

– O que está tomando? – ele pergunta examinando meu copo um pouco surpreso.

– A senhorita está tomando um uísque 21 anos. – Heitor encorpora seu lado protetor. – E já é a segunda dose.

– Vou acompanhá-la, então. Um uísque duplo, por favor. – João também lança um olhar ameaçador.

Pobre barman.

Assim que Heitor se afasta ele começa:

– Como você está, Isabel?

– Bem – respondo automaticamente – E você, João? Como vai?

– Bem – ele repete minha resposta e balança a cabeça.

Finalmente olho para ele e o que vejo faz uma pergunta escapar involuntariamente.

– Está bem mesmo? – ele não me pareceu nada bem. Os olhos pesados, a barba por fazer, a camisa amassada.

Ele hesita, mas finalmente responde.

– Não. – esfrega o rosto com as mãos e as passa pelos cabelos. Parece exausto. – E você? – ele repete.

– Também não.

Heitor volta com o pedido de João. Coloca o copo sobre um porta-copos de couro e se afasta.

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