Capítulo 30

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"Não há nada entre nós. Nunca houve. Apenas ar."

Cantando na Chuva.

João tinha de fato perdido a guarda das crianças. Eu tinha insistido em ajudar. Ofereci-me para ir às audiências com o juiz e falar em favor dele, mas recusou. Ele estava cada vez mais evasivo quando eu mencionava as crianças. Acho que estava muito magoado por perdê-las. Eu não quis forçá-lo a nada.

A semana seguinte era o fim de semana determinado judicialmente para que o pai pudesse ficar com seus próprios filhos. Peguntei se preferiria passar o tempo a sós com as crianças mas, segundo ele, elas queriam me ver. Então no Sábado a noite nos reunimos para ver a Noviça Rebelde.

Os dois pequenos adoraram o filme e, depois, saímos para jantar enquanto elas cantavam sem parar.

– Sol, o meu amigo Sol!

– Lá é bem longe daqui!

– Si, indica condição!

Certo, eu admito. Não foram só as crianças que cantaram no carro.

Jantamos no Roberto's e depois deixei a família Micelli seguir seu caminho.

Já não me considerava uma pessoa insomnia. Autodenominei-me uma estudiosa da noite. Guardando suas fases e seus ruídos que se modificavam hora a hora na madrugada. E, naquela noite, consegui dormir um pouco mais do que de costume.

Acordei tão disposta que decidi ir até o parque correndo. Era domingo e, mais tarde, eu, a Paula e a Carol sairíamos para almoçar. Eu finalmente tinha mencionado sobre os filmes e minha relação com o João para Paula e ela achou melhor nos encontrarmos para discutirmos sobre isso. Eu não tinha mesmo dado muitos detalhes, inclusive não tinha mencionado que a Carol já sabia e que além de tudo conhecia o João.

Certa vez, antes da morte de Eric, enquanto almoçávamos juntas durante a semana, ele e João apareceram no mesmo restaurante e se juntaram a nós.

– É como um episódio de Supernatural – sussurrou Carol em meu ouvido na ocasião. Ela era fã incondicional do seriado e referiu-se aos charmosos irmãos Winchester.

Lembro de não ter achado muita graça. Primeiro porque nunca curti o seriado e depois eu realmente não ia com a cara do João, mas pensando bem foi uma comparação interessante.

Calcei meus tênis e lancei minhas passadas no asfalto. Iniciei um trote cadenciado e com esse ritmo estava quase atingindo o transe dos corredores quando passei pela banca de jornais. Meus olhos se moveram sem meu comando e viram coisas que eu não queria ver.

Cada passo se tornou uma tortura. Uma dor lancinante incendiava a lateral esquerda do meu abdômen. Foram cinco quilômetros dolorosos, mas os piores cem metros vieram depois quando eu apenas caminhava de volta para casa com um jornal em minhas mãos.

Entrei em casa e larguei aquele papel sujo em cima da mesa. Assim que sai do banho o interfone anunciou a chegada de minha amiga.

Abri a porta para ela e nos abraçamos.

– E ai, amiga? Tudo bem?

– Tudo certo.

– Já está pronta para ir?

– Só vou secar o cabelo e já vamos.

Voltei alguns minutos depois de deixar o ar quente balançar meus cabelos e o barulho do secador calar meus pensamentos mas, quando voltei para a sala, Paula tinha o jornal de fofocas nas mãos e eu podia ver as letras grandes da manchete sobre a foto que ocupava a primeira página inteira.

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