Capítulo 9

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''Esta é a sua vida, e ela se acaba a cada minuto.''

O Clube da Luta

Sim, nós íamos sair juntos. Dois casais de amigos, por assim dizer. Eu adorava a Raquel, mas o João era difícil de engolir. Mesmo assim, pelo Eric, eu me esforçava.

Dessa vez ele tinha planejado um desses jantares sensoriais em que se come no escuro. O João tinha, obviamente, odiado a ideia mas Raquel, por outro lado, amou. Eric estava especialmente ansioso sobre esse jantar. Eu diria até um pouco nervoso, mas negou quando eu perguntei. Ele mencionou algo sobre o relacionamento de João e Raquel não estar indo muito bem, e que queria dar uma força.

É incrível como sua vida toda pode mudar em fração de segundos. A maioria das pessoas tem o privilégio de ter uma existência sem grandes eventos traumáticos. Nós não teríamos essa sorte.

Estávamos os quatro no carro, a caminho do restaurante. Falávamos sobre a vez que os garotos decidiram pegar um carrinho de rolimã e descer a maior ladeira do bairro. Eric saiu ileso mas João cortou o supercílio e ficou com uma cicatriz permanente.

- Eu acho um charme. - disse Raquel.

João e a esposa iam no banco de trás do grande carro de Eric. Eu e ele estávamos na frente.

Mesmo sem poder vê-lo, pois estava sentado diretamente atras de mim, eu sabia que João não estava gostando de ser o centro da conversa. Isso tornava as coisas ainda mais divertidas. Nós riamos totalmente alheios ao mundo lá fora, quando uma luz muito forte aproximou-se rapidamente da janela pelo lado do motorista.

Tudo escureceu de repente e ficou muito quieto por alguns instantes, até que senti minha cabeça se chocando contra o vidro do carro. Uma, duas, três vezes até que a janela estourou.

Tudo rodava e o cinto de segurança era como uma parede de concreto que colidia contra meu peito repetidas vezes. O silêncio agora fora substituído pelo barulho do metal se contorcendo, e era aterrorizante.

Por um momento, pareceu que ficaríamos naquele movimento, girando por toda a eternidade, mas então tudo parou e o silêncio voltou.

- Eric!

Eu tentei gritar, mas meu chamado saiu apenas como um sussurro. Apesar da dor, consegui encher o peito de ar para conseguir repetir.

- Eric!

Virei o rosto o máximo que pude, mas minha cabeça parecia estar presa. Forcei o corpo para frente e me inclinei para conseguir vê-lo. Apenas o braço dele consegui identificar. O resto era tudo ferragens.

Tentei, então, olhar para trás. O air-bag aberto em minha frente começava a se esvaziar.

- Raquel, você está bem?Meu Deus! Por favor, tem mais alguém me ouvindo?

Não ouve resposta. Eu estava lá sozinha, no limite da sanidade, prestes a perder a razão quando senti algo que me tirou daquele buraco escuro no qual eu estava me afundando. Uma mão em meu ombro.

- Isabel, você está bem? Eu estou aqui.

- João! Você está bem? Consegue ver a Raquel?

- Não.

- Eu também não consigo ver o Eric. Nós precisamos fazer alguma coisa.

Mas nós dois sabíamos que não havia muita coisa que poderíamos fazer.

Um rosto apareceu ao meu lado. Era uma mulher negra com feições sérias e voz tranquilizadora. No começo não consegui entender o que ela estava dizendo, sua voz era muito doce. Ela repetiu várias vezes até que comecei a compreender.

- Eu sou médica. Vou te ajudar. Procure não se mexer.

Rapidamente, uma equipe de pessoas cortou a porta do carro. Colocaram-me um colar de plástico no pescoço. Soltaram meu cinto de segurança e então, em um só movimento ágil me tiraram do carro. Fui posicionada sobre uma prancha de madeira.

- Eu estou bem, ajude a eles. - eu disse apontando o carro. Eu estava desesperada. Nunca tinha me sentido tão sozinha e impotente. - Vocês precisam ajudá-los.

- Calma, moça. - um jovem rapaz da equipe de resgate tentava me controlar. - Os outros vão cuidar deles. Eu estou aqui para ajudar você agora. Aonde dói?

- Meu peito - respondi, enquanto via João sendo retirado do carro. Eles o colocaram ao meu lado, também em uma prancha, e consegui ler em seus lábios.

- Eu estou aqui.

O enfermeiro rapidamente rasgou minha blusa e meu tórax ficou exposto. João fechou os olhos e imediatamente virou o rosto.

Logo eu estava dentro de uma ambulância e tudo escureceu de novo.


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