Carpe diem, Jasmim!

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Levei um K.O  da gripe que cês não tem noção. Cá tô eu de volta! O próximo capítulo tá quase pronto, mas não vou prometer nada pra depois não postar como fiz com esse...


                                                                                            *



De tão emocionalmente exausta que eu estava, adormeci. Depois de algumas horas, acordei toda torta e babando. Senti-me como em um daqueles cochilos após o almoço aos domingos, quando a gente desperta sem saber direito onde se está e que horas são. Sentei-me na cama, piscando algumas vezes para dissipar os últimos indícios de sono. Foi quando notei Mabuchi trabalhando na mesa existente no quarto.

– Não quis acordar você – ele disse devagar.

A luz do fim de tarde passava por entre as cortinas entreabertas, deixando o clima amistoso e suave. Olhei para o relógio com detalhes em dourado em cima do bidê e arregalei os olhos.

– Não percebi que estava cansada, me desculpe. – Trocamos um olhar desconfortável. Eu me sentia exposta e um pouco vulnerável, mas estranhamente bem, com ele me vendo assim. – Correu tudo bem com os representantes?

– Valentina Hernández estava lá, perguntou por você – ele murmurou.

Sorri ao me lembrar de minha audácia por ter me oferecido para ser tradutora de língua espanhola, numa negociação importantíssima da empresa com Valentina. Graças ao bom Deus, ela foi compreensiva com minha fluência duvidosa e o negócio ficou acertado e isso obrigou Mabuchi a me manter como sua secretária, o que tinha sido sua promessa caso tudo corresse bem.

Brevemente falamos sobre o encontro deles, até que o telefone de Mabuchi tocou e eu fingi estar interessada nas paredes, para lhe dar mais privacidade.

***

Sabe quando você quer encher alguém de perguntas e ao mesmo tempo deseja ficar em total silêncio, observando essa mesma pessoa com o máximo de atenção? Eu estava assim. Não conseguia ficar quieta. Andava de um lado para o outro pelo quarto, dando minhas olhadas em Mabuchi. Minha expectativa era de que ele não estivesse percebendo isso, mas estava tão óbvio que ele não pode deixar de notar.

– Quer me perguntar alguma coisa? – seus olhos não se moveram dos papéis à sua frente.

– Quando foi à última vez em que foi a uma festa? – a pergunta escapou de mim antes que eu pudesse morder as palavras de volta.

– Estive em duas neste mês – respondeu ainda sem desgrudar os olhos dos documentos.

Algo em sua resposta não me convenceu.

– Festa de verdade? – incentivei, ainda andando pelo quarto. – Com música e pessoas dançando?

– Havia pessoas e música – ele resmungou.

– Sem dança? – eu ri. – Que tipo de festa é essa? Aposto que envolvia trabalho.

Meu comentário fez com que ele finalmente erguesse os olhos para mim.

– Talvez – ele refletiu a contragosto. – Não tenho tido muita diversão nos últimos tempos – deu de ombros. – Quando se gerencia uma empresa tão grande é preciso abrir mão de algumas coisas – deu de ombros de novo. – Não é algo tão ruim quando se está acostumado. E além do mais, prefiro gastar meu tempo livre com Ellie.

– A empresa não vai ruir se gastar um tempo para si – parei de andar, ficando estacionada no meio do quarto.

Seus olhos franziram. Ele provavelmente estava se perguntando o porquê de eu ter iniciado aquela conversa. A verdade era que nem eu sabia ao certo.

– É difícil acompanhar seus pensamentos, sabia? – Mabuchi retorquiu calmamente. – Em um momento resmunga sobre ficarmos juntos no mesmo quarto e no outro quer saber sobre mim.

– Eu não estava resmungando. É que ficaremos aqui dois dias – tentei sentar reta e imitar sua calma. – Iremos, querendo ou não, estar perto um do outro e, já que o jantar com os investidores acontecerá só daqui a algumas horas, achei que seria bom ter algum tipo de conversa, pra variar.

Mabuchi riu. Primeiro um riso baixo e então uma gargalhada alta e descarada. Olhou para mim e mordeu os lábios para controlar, mas só conseguiu rir mais. Ergui a sobrancelha. Ele estava finalmente deixando sua insanidade vir à tona ou tinha apenas engolido um palhacinho, como diria minha mãe?

– Suponho que eu deva ser uma piada engraçada! – falei um pouco irritada, por não entender o motivo da graça. – Aposto que vou amar ouvir.

– Suas perguntas inconvenientes me divertem! – fechou as pastas em que estava trabalhando e olhou para mim. – Muito bem, vamos conversar. Comece você.

Surpresa com sua reação, respondi com cautela.

– Não há nada muito fora do comum sobre mim.

– Que tipo de versão, sobre o nosso compartilhamento de quarto, está preocupada que inventem?

Rolei meus olhos. Sempre tão direto.

– No meu antigo emprego, meu chefe quis se aproveitar de mim e, quando não correspondi, me acusou de roubo – expliquei, sentindo meus punhos se fecharem. – Desta vez, você sendo esse chefe lindo e, eu, a sua secretária pessoal, agradecida pela oportunidade de trabalho, podem pensar que estendi meus serviços ao seu quarto. As pessoas não se preocupam com a verdade, quando querem espalhar fofocas. Sua reputação continuaria inabalada, a minha não.

Ficamos em silêncio e, apesar de estar arrependida do que tinha acabado de falar, eu sabia que não podia deixar de responder. Qualquer traço de humor rapidamente sumiu do rosto de Mabuchi. Ele pigarreou, desviou o olhar e fitou-me de novo.

Eu tinha roubado suas palavras.

Bom.

***

Os minutos se passavam lentamente durante o jantar. Eu não entendia o porquê da minha presença naquele restaurante, já que havia uma tradutora de verdade para Valentina, mas pelo menos apreciei a companhia divertida dela, a comida deliciosa e meia taça de vinho.

Boa parte da noite, as conversas foram sobre investimentos, gastos e mais do mesmo, enquanto eu sorria e acenava com a cabeça, como se entendesse absolutamente de tudo. Mas teve um momento em que Valentina me puxou para falar algo em segredo em meus ouvidos.

– Su jefe no quita los ojos de usted. Creo que te quiere!

Será que entendi direito? Mabuchi me deseja? Como ela podia saber disso...

Abalada com as palavras de Valentina, fiquei feliz quando o jantar finalmente foi encerrado. Despedi-me dela com um abraço e mais uma vez ela falou em meu ouvido.

La vida es corta, mi querida, aprovecha!

Meu maior abalo, porém, veio com o convite de Mabuchi, assim que terminaram as despedidas.

– Jasmim, sei que combinei de manter nosso relacionamento de modo exclusivamente profissional, mas, quero te fazer um convite. Você gostaria de ir comigo a uma festa? Afinal foi sua a sugestão de que eu deveria me divertir mais e você parece que entende mais desses assuntos do que eu. E então, o que me responde?

E agora, Bom Deus, o que devo responder?

Aprovecho?

Era Pra Ser VocêHistórias para pegar e não largar. Descubra agora