Última vez

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– Se a sua nova secretária entrar aqui e nos ver... – interrompi o beijo e me levantei indo até a janela.

– Ela não tem nada com isso – ele disse com cuidado.

Soprei o ar fitando o movimento do lado de fora da janela. Como sempre Nova York estava inquieta. Já tinha me acostumando com o ritmo da cidade, mas às vezes tudo ainda era desconcertante para mim.

Dei de ombros limpando o batom borrado. Pelo reflexo do vidro eu o vi se aproximando.

– Tão confusa – ele sussurrou balançando a cabeça e tocando meu ombro.

– Posso dizer o mesmo de você – devolvi no mesmo tom baixo.

Ficamos em silêncio. Um silêncio bom, porque nenhum de nós sabia o que falar ou o que fazer, e ficarmos quietos parecia melhor do que dizer alguma bobagem (embora fôssemos conhecidos por isso).

– Seus pais estão felizes por sua volta? – perguntou. Sua mão brincando com meu cabelo.

Balancei a cabeça.

– Estão. Quase toda vez que nos falamos citam o fato de eu estar voltando pra casa.

Sua mão continuou apertando meus cachos entre os dedos, mas o diálogo morreu por pelo menos uma batida.

– Você está feliz por estar voltando?

Fechei os olhos e encostei a testa no vidro.

– Sim. Não. Às vezes sim, pois estou morrendo de saudades. Mas os meus amigos estão aqui, minha casa e... – hesitei sobre o que dizer em seguida. – Muita coisa está aqui – completei.

Mabuchi deixou sua mão cair ao lado de suas coxas e assentiu. Nós dois permanecemos num silêncio desconfortável outra vez.

– Como está Ellie? – perguntei.

– Bem, deixei que ficasse em casa hoje. Mas amanhã voltará a sua rotina normal.

Balancei a cabeça concordando.

– Ela gosta de ficar perto de você – falei me virando pra ele. – Assim como eu gostava de ficar com meu pai quando era pequena, seguindo-o por toda parte.

Ele me encarou surpreso como se até então não tivesse percebido isso.

Tão perspicaz sobre negócios e tão cego para coisas óbvias.

– Ela me mostrou as bonecas que comprou para ela. Ela sente sua falta – continuei quando ele não disse nada.

Gregory se afastou de mim e voltou a se sentar em sua cadeira. Suspirei temendo ter ido longe demais.

– Você nunca tira férias? – minha curiosidade aflorou. – Dias de folga? – insisti.

– A empresa...

– Ellie precisa de você mais do que a empresa precisa – murmurei com cautela.

Seu punho apertou em cima da mesa e ele suspirou.

– Eu trabalho duro para que Ellie tenha um bom futuro e não precise depender de ninguém.

Era um bom ponto, mas eu tinha um ainda melhor.

– Você tem o bastante em sua conta bancária para que ela não precise depender de ninguém.

– Por que você está me dizendo tudo isso?

– Ela sente sua falta – repeti indo me sentar na cadeira em frente a ele. – Muita.

Era Pra Ser VocêHistórias para pegar e não largar. Descubra agora