Eu me sentia como uma fora da lei. Minha intuição me dizia que a qualquer momento Mabuchi surtaria comigo. Como se de alguma forma ele soubesse o que eu havia feito ontem.
Julyan e eu ficamos até depois das nove investigando a vida do nosso chefe. Éramos péssimas detetives, porque os sites de pesquisa ainda estavam no histórico do meu computador.
Jack tinha o sono mais pesado que já vi, perdendo apenas para o meu pai. Mesmo com todo o barulho que fizemos, só acordou quando sentiu o cheiro de macarrão com salsicha - uma das minhas especialidades na cozinha - que preparei.
Eu tinha acordado um pouco mais cedo pela manhã, parte minha achava isso estupidez, a outra parte achava que era apenas precaução. Mas se eu pudesse reduzir minhas chances de esbarrar com o cara do metrô, certamente eu faria. O problema disso tudo era que bastava me lembrar dele para me sentir violada, e então chateada e depois terrivelmente furiosa.
Prometi a mim mesma que adotaria uma postura diferente caso algo semelhante ao que havia ocorrido com Dylan tornasse a acontecer. Na época eu estava tão confusa que não sabia que atitude tomar. Na verdade, Meredith tinha ladrado o que ela achava que eu deveria fazer durante horas, enquanto me consolava.
Ir até uma delegacia e denunciar. Era de fato era a coisa mais sensata a fazer, mas na minha cabeça eu achava que iriam me culpar e, pior, me enviariam de volta para o Brasil.
Tantos meses depois e mais uma vez me calei.
Pensei em minha mãe que sempre foi tão corajosa, e me perguntei o que ela faria no meu lugar.
O silêncio foi minha única resposta.
Olhei para o relógio digital no meu celular. Ainda faltavam cinco minutos para a empresa começar a pleno vapor e abrir realmente. Tive sorte de ter feito amizade com um dos seguranças, pois por bondade dele sempre podia chegar mais cedo e me acomodar, sem precisar esperar que o expediente começasse.
Fechei os olhos, lembrando-me de tudo o que Julyan e eu descobrimos juntas. Ela sabia uma quantidade valiosa de informações, mas com o nosso velho e confiável amigo Google o leque ampliou-se.
Andrew Johnson era ninguém menos que o filho de Marco.
Esfreguei os olhos lembrando que, conforme acessávamos novas páginas, mais sujeira ia aparecendo. Obviamente Andrew estava envolvido no golpe que o pai tinha dado. Pelo menos era o que davam a entender os sites acessados. O estranho era que, na verdade, grande parte deles deixava as sujeiras soltas, de uma forma sutil, como se tivessem medo de represálias.
A maior parte do dinheiro roubado ainda não havia sido encontrado. Um site inclusive tinha feito um gancho com o dinheiro roubado mais o fato de Andrew ter aberto uma empresa de publicidade, logo depois que o imperial de Mabuchi tinha começado a ruir.
"É impossível não especular de onde saiu esse dinheiro!" - o repórter comentou. Todavia o que Andrew sempre respondia para a imprensa eram coisas vagas como dinheiro vindo de herança, dinheiro de aplicações, etc.
Nem mesmo a polícia tinha sido capaz de provar que o dinheiro era realmente dos Mabuchis, apesar de tamanhas desconfianças e evidências.
Quando assumiu a empresa, Mabuchi teve que lidar com um inferno. Ela estava a um fio de quebrar por completo. Julyan me disse que inúmeros funcionários foram demitidos, enquanto alguns fizeram isso por vontade própria, por falta de pagamento. Praticamente todas as filiais foram vendidas, e os sócios desfizeram a sociedade. A coisa toda tinha me lembrado o Titanic afundando.
- Ou ele é muito bom no que faz, ou é um bastardo de muita sorte - eu havia murmurado.
Julyan assentiu e riu.
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Era Pra Ser Você
ChickLitJasmim Sanclair é uma estudante de design fazendo intercâmbio em Nova York. Depois de ser assediada pelo antigo chefe, perder o emprego, ser barrada nas aulas e quase não ter mais um lugar para morar ela já deveria saber que nada seria fácil em sua...
