O barulho de ferro sendo forçado me faz tremer de medo. Está frio e úmido dentro do box do banheiro, mas eu não me atrevo a ir a qualquer lugar. Gustavo não me respondeu, mas vi que visualizou minha mensagem. Faz 10 minutos que eu pedi sua ajuda. E o portão continua sendo forçado.
Onde estão minhas vizinhas idosas e fofoqueiras naquele momento em que ele está tentando entrar em casa? Olho para o relógio do celular e vejo que já são mais de onze da noite. Meu desespero é palpável, enquanto eu vejo a tela do celular ficar preta e a bateria morrer de vez. O telefone de casa fica no andar de baixo.
Eu não sei se Gustavo levou a sério a minha mensagem – pensando bem, acho que nem eu mesma acreditaria naquilo. Ele deve estar pensando que eu sou só mais uma mulher doida que está implorando por atenção. Eu estou sozinha nessa.
E agora eu tenho que tomar uma decisão. Vou deixar que Fernando determine dessa forma o que acontece ou deixa de acontecer comigo, ou vou tomar uma atitude?
Lembro do seu rosto simples, os cabelos castanhos caindo em seus olhos negros, e sinto raiva. Eu posso ser dispensável ao meu ver, mas não permitirei que ele me faça ser dispensável. Não vou deixar que ele determine minha vida dessa forma. Já vivi muitos anos de terror por sua causa, e dessa vez, as coisas vão mudar.
Não sei dizer o que aconteceu comigo, se foi o acidente dos meus pais ou a realização de que eu sou uma pessoa solitária, mas eu não vou ser a vítima dele.
Nunca mais vou me permitir ser sua vítima.
Largo o celular no chão e abro o box, xingando baixo quando o vidro bate um no outro, fazendo barulho. Eu não posso deixar que ele me escute. Eu só preciso chegar na cozinha, pegar uma faca, e até a minha bolsa, pegar o spray de pimenta. Um dos dois tinha que assustar esse psicopata.
Mesmo que eu saiba que eu teria mais sucesso com o spray do que com a faca. Fernando é imenso, e para que eu possa me defender com a faca, teria que chegar perigosamente perto dele. É engraçado como temos pensamentos frios e calculistas quando sua vida está passando por algum perigo. Calculamos a distância que seu braço pode chegar, qual é o melhor local para uma fuga necessária. Mas no final, quando a ação realmente acontece, descobrimos como agimos por instinto.
Eu só esperava que o meu instinto fosse de sobrevivência.
Desço as escadas devagar, me espremendo contra uma das paredes, tomando cuidado para que ele não me veja pela janela. Minha sorte é que todas as luzes estão desligadas e eu não preciso delas para ir onde eu quero. Conheço cada pedaço da casa como a palma da minha mão.
Um último barulho no portão me faz travar, e um relance para a janela me faz ver a figura da qual eu fujo há 6 anos. As toras de madeira que cobrem a maior parte do ferro velho do portão tampam quase toda a visão da rua – mas eu consigo ver a camisa de poliéster laranja dele. Eu não acredito na audácia dele – provavelmente saiu do trabalho para vir me infernizar: ninguém desconfiaria de um homem de social tentando entrar numa casa no Brooklin.
Tenho quase certeza de que ele consegue me ver, mas decido acreditar que estou enganada. O medo passeia pela minha barriga mais uma vez, e não consigo mais continuar com meu plano – na verdade, ele parece uma idiotice agora.
O portão e a porta de entrada trancados não me dão a sensação de segurança que eu preciso nesse momento. Nada consegue parar Fernando por muito tempo, eu já aprendi isso da pior maneira possível.
Observo aterrorizada enquanto o corpo se afasta do portão, acreditando que talvez ele tenha desistido. Mas logo vejo o rosto dele iluminado pelo poste de luz da rua, e seus olhos negros procuram na escuridão pelos meus. Algum sentido psicopata dele deve sentir que eu estou ali, olhando para ele do outro lado da janela, porque ele continua procurando, e eu vejo um sorriso de pura loucura.
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A Chance do Tempo
ChickLit"Melinda não é feliz. Apesar de ter uma família amorosa, trabalhar com algo que parece fazer a diferença para alguém - mesmo que não para ela - e ter ótimas amigas, falta algo. Mas ela deixa de pensar nisso quando o seu mundo vira de ponta cabeça ap...
