20

303 31 6
                                        

Estou sentada no sofá de Gustavo, olhando para a sacada ao entardecer. Seria uma visão bonita se eu não estivesse tão morta por dentro.

Ele está tomando um banho e eu estou evitando olhar para as cicatrizes avermelhadas dos meus braços. Não chega a doer, mas repuxa que é uma beleza.

O dia de hoje parece que saiu das páginas de um romance da Agatha Christie: o mistério, o suspense, o crime. Só que ninguém quer ser o Hercule Poirot. E eu não estou a fim de continuar sendo a vítima.

E ainda por cima, para coroar todo o dia e sua esquisitice, tem o beijo.

Eu não esperava que ele me beijasse daquela maneira, depois de ter falado todas as verdades que eu não queria ouvir. Sei que sou uma pessoa extremamente desconfiada, mas eu não estava errada ao pensar que ele não está feliz com a minha situação. Com a situação em que o coloquei.

Foi a melhor coisa que eu já senti na vida, os cheiros, os toques. E o que veio depois foi tão inacreditável quanto. Ele encostou a cabeça na minha, disse algumas palavras em alemão – sério, ótimo momento para se mostrar bilíngue – e me puxou pela mão de volta para o carro.

O caminho para o hospital foi silencioso – eu tinha esquecido que precisava trocar meus curativos e ver meus pais – e depois de todo o procedimento (a enfermeira disse que estava na hora de ficar sem as ataduras, deixando as queimaduras respirarem), ele me perguntou se eu estava pronta para ir embora. E desde então, estou sentada aqui, olhando para o apartamento simples dele, onde ele possui apenas o estritamente necessário: um sofá, duas banquetas no balcão americano, um suporte na parede com uma televisão, e nada mais.

Eu esperava algo enorme e luxuoso, espelhando a condição financeira que seu carro esfregava na cara da sociedade. Mas não consigo ver fotos, ou qualquer item de decoração. É tão estéril que sinto um pouco de pena dele.

Talvez seja isso que ele queria dizer, quando falou que deixou seus planos de lado porque não conseguia parar de pensar em mim. Não que o fato de seu apartamento parecer uma prisão sueca seja minha culpa, mas que ele tinha grandes planos, e eles o deixavam longe de casa para que ele não se importasse com a falta de personalidade de seu apartamento.

O celular que ele comprou para mim pesa na minha mão, mas eu não sinto vontade de mexer nele. O que é extremamente engraçado, pois durante muito tempo eu desejei ter dinheiro para comprar exatamente esse aparelho, e agora, eu só consigo observar a maçã na parte de trás, descontente.

Ele ainda foi atencioso e comprou o aparelho rosa.

Mandei uma mensagem para meus irmãos, falando que estava temporariamente com um novo número, e essa foi toda a interação que tive com ele.

Largo ele no sofá e vou dar uma olhada mais de perto da sacada. Eu sempre morei em casas, e pela primeira vez vejo o horizonte da cidade tão do alto. Estou no décimo oitavo andar, e a vista pode parecer intimidadora, se eu não estivesse tão maravilhada com o por do sol. Eu nunca tive problemas com altura, e a sensação de segurança que ela traz, me faz ter a certeza de que estou no lugar certo.

Um vento mais forte e gelado bate na sacada desprotegida e eu sinto uma pequena vertigem. A última refeição que eu tive foi o café da manhã, vomitado logo depois, então acho melhor entrar – não quero dar chance ao azar, e a grade da sacada é bem baixa.

Eu paro abruptamente assim que volto para a sala, observando Gustavo desfilando pela cozinha, usando apenas uma calça jeans. Ele usa uma toalha para secar o cabelo e parece completamente despreocupado com a minha presença – como se tivesse esquecido que eu estou logo ali, babando no seu corpo perfeito.

A Chance do TempoOnde histórias criam vida. Descubra agora