Seja bem vinda!

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Parte I

📚

Gritos
Balas de borracha
Manifestantes ensandecidos
Policiais irritados
Mais gritos
Mais tiros, dessa vez já não sei se é bala de borracha. Não consigo diferenciar.

Um dia que era para ser calmo, tranquilo, de palestra, exposição, manifestação, manifestação, se tornou um caos generalizado.

Me perdi dos meus amigos há uma hora e não consigo me localizar. Para mim, todos os prédios são iguais. Não consigo identificar um ponto de referência.

Sinto minha cabeça latejar, sempre participei desses projetos, sempre defendi as causas em que acredito. Nunca chegou a esse ponto. E como chegou? Ainda não sei. Foi tão rápido que só escutei os zumbidos de longe e depois, mais um surto coletivo e mais nada.

Parei numa calçada que não reconheço, mas que tem um poste útil para eu me apoiar enquanto a multidão se dissipa.

Não percebo a rua esvaziar e os guardinhas chegarem mais perto, pois ainda estou zonza. Coloco a mão na testa para tentar limpar meu suor e percebo um líquido áspero descendo pela lateral do meu rosto, provavelmente sangue.

Cadê meus amigos? Filhos da Puta.

Não consigo me mexer desde que parei nesse poste.

-Moça? - Ouço uma voz, mas não consigo identificar seu portador, pois minhas vistas já estão embaçadas de festim, poeira, fumaça e pânico.

- Oi, quem é?

- Não consegue me enxergar? - ignorando minha pergunta, ele se aproxima e toca o meu braço com delicadeza. Mas logo puxo o braço de volta, porque tudo que eu não precisava era de um estranho extremamente alto tentando chegar perto de mim num momento de vulnerabilidade. Sim, sei que é alto pelo vulto, só a sombra me cobre toda. Que situação patética, eu penso, e deve ser mesmo.

- Por favor, não quero confusão, tá legal? Eu estava de passagem e fui atingida por alguma coisa. Só preciso descansar um pouco e retomar a caminhada.

- Tem certeza que não sabe quem eu sou ou, simplesmente, não consegue me enxergar?

Com medo do que poderia acontecer, digo a coisa mais sensata:

- É claro que eu consigo enxergar. E não, não sei quem você é. - tento focar em seu rosto para enfatizar o que acabei de falar.

- Tudo bem, pode parecer meio estranho eu dizer isso, mas você está sangrando. Eu trabalho aqui perto e aproveitei a escolta da polícia para terminar o trajeto. Lá tem uma enfermaria e você poderá ser devidamente atendida...

- Não precisa. - o corto.

- Eu poderia te deixar aqui. Ou te levar para um hospital, que é um pouco mais longe. - ele para, e tenho a sensação de que coloca as mãos nos quadris - Olha, eu sei que sou um completo estranho para você. - ou estou ficando totalmente louca ou ele abriu aspas para enfatizar a palavra "estranho". - Mas eu quero muito te ajudar. Sabe? Parece sério. Cabeça é sempre sério. Por favor? Você parece tonta e não tô vendo ninguém por perto para te socorrer. Além disso, se eu fosse te fazer mal, já teria feito. Sei que não está enxergando uma palma à sua frente.

- Ei, tô enxergando, sim. Não confunda minha enxaqueca com desamparo - Que é exatamente o que está acontecendo: estou desprotegida e desamparada. - Eu estou te vendo perfeitamente. Só estou sem meus óculos por causa dessa truculência toda. - E para provar que estou super errada, tento dar um soquinho no braço dele que pega bem do lado esquerdo do abdômen. Prefiro nem comentar.

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