Tudo vai ficar bem

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Após alguns minutos, a expressão do Noah foi suavizando e ele foi ficando mais à vontade.

O médico dizia algumas coisas e meu filho respondia com sorrisos e mais sorrisos.

Quando Henrique reparou que eu os estava observando, convidou-me para retornar à sala.

- Bom, será que eu poderia ver a bicicleta que vai entregar à ONG hoje, Noah?

- Claro, Dr. Vou busca-la.

- Ei, rapazinho, não precisa me chamar de DOUTOR. Somos amigos agora, lembra?

- Tá, Henrique. É meio estranho chamar um homem da sua idade pelo nome, mas vou tentar.

- Noah! – o repreendo de braços cruzados para me proteger da diferença de vestimentas aqui na sala.

Sem entender o insulto oculto, Noah se retira saltitante da sala para buscar a bike.

- É só uma criança. Tudo bem.

- Não foi o que ele quis dizer.

- Entendo. Bom, de fato você exagerou um pouco.

- É, eu percebi. - confesso. - O que disse para animá-lo tanto? – pergunto.

- Bom, ele não queria te preocupar, por isso ficou guardando para si algumas coisas que acabaram mexendo com seu emocional. É normal em crianças como ele isso causar uma espécie de febre decorrente de tal estresse.

- Como assim? Do que o senhor está falando?

- Eu prometi não contar, e ele prometeu contar quando chegasse a hora. Disse também que não vai mais se deixar abater e que, por você, será forte em dobro.

Sento na minha poltrona ainda sem saber como reagir àquilo, então enterro a cabeça em minhas mãos.

Nada de lágrimas.

- Eu sinto muito por ter estragado sua folga. - suspiro e, enfim, volto à encarar o médico.

- Ah, ele já me convidou para sua festa surpresa como compensação. E eu, em pensaria em recusar.

- Que garotinho, hein, como ele sabia?

- Ele disseque você sempre faz uma mini festa para ele e não esperaria menos esse ano. Eu posso levá-los.

- Eu agradeço muito tudo o que está fazendo por nós, Doutor Torquato, mas creio que não será necessário.

- Serve para você também, Luna, pode me chamar de Henrique. E creio que não será nenhum incômodo.

Ele não iria ceder de jeito algum e ter um carro é um luxo do qual não posso desfrutar no momento, então. Não sei se sua carona seria um infortúnio tão grande mesmo dada sua origem desconhecida.

Como eu me livrarei desse homem?

O jeito como me encara está me deixando um pouco constrangida.

- Bom, Henrique, se aceitar um café enquanto eu me arrumo.

- Claro. - Pelo menos seu sorriso me tranquiliza um pouco.

Noah não poderia escolher melhor momento para aparecer.

- Cheguei. Olha como ela está nova, tio Henrique. Mamãe disse que me daria outra, então eu parei de usá-la e limpei para entregar na melhor condição.

- Mas que perfeito. – disse o pediatra, me encarando o tempo inteiro.

- Se me permitem. – falo o retribuindo e apontando para o banheiro. Como se ele soubesse onde fica. - vou me ajeitar. - ligo a TV em um jornal regional para entrete-lo e chamo meu filho para uma breve conversa.

- Oi, mãe.

Falo sobre as regras básicas de comportamento na presença de estranhos e o libero para voltar pra sala.

Corro com o banho e me arrumo no espelho do corredor. Para ver e ouvir o que estão falando na sala.

No noticiário, vejo a foto de Rafael.

Me aproximo para ler a legenda:

Jogador de Futebol relata em suas redes sociais que está voltando para o clube que o revelou e, em sua festa de reestreia vai apresentar crianças carentes de uma ONG que tem como objetivo tornar suas vidas melhores através do esporte.

Perco os sentidos momentaneamente e não percebo o quanto me aproximo da sala.

- Você está bem? - pergunta Henrique.

- É claro. - balanço a cabeça para cima e para baixo. - Já estou pronta. Vamos?

- Sim.

Ele recolhe suas coisas e caminha em direção ao carro.

Vejo que meu filho ainda está parado olhando o noticiário sem a expressão surpresa que antes marcavam minhas feições.

- Você sabia, filho?

Nem precisei ouvir a reposta, é claro que ele sabia.

Estava tentando esconder de mim, me proteger o tempo inteiro.

Já estava na hora do Rafael saber que tinha feito um diamante.

Eu precisaria de muita força para engolir esse orgulho e lidar com as consequências do meu egoísta.

Toda a força estava na minha frente.

De cabeça erguida e confiante.

- Vamos, mamãe. - e então, desligou a TV.

Ah, meu filho.

Após trancar tudo, ajudo Noah colocar a bicicleta no posta malas, seu cinto de segurança e sento no banco do carona.

Henrique me encara e sussurra algo parecido com: "Tudo vai ficar bem."

E eu só consigo pensar: "não perco essa mania de me envolver com estranhos".

Nem com um filho para proteger.

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