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"Respire fundo.
Seja forte.
Não desmorone."
Aquelas eram minhas três frases favoritas naqueles quatro meses de uma revolução em minha vida. Jamais pensei que encontraria naquele lugar à minha redenção.
— Que bom que você veio essa semana, Morgs! Preparei os melhores bolos!
— Obrigada, Sr. Miguel. — Agradeci sorrindo. Ele era um bom padeiro, além de uma pessoa excepcional.
— Como ela está? — Ele pareceu preocupado.
— Não muito bem. — Falei cansada. — Agora é somente paliativo.
— Rezo todos os dias por ela. Para que ela não sofra além do necessário.
Não respondi. Eu sabia que todos ali naquele bairro adoravam a Sra. Carter.
— Você é um anjo que caiu do céu na vida da Sra. Carter.
— Eu me preocupo com ela, fico feliz que ela deixe que eu faça parte de sua vida.
Bridget estava doente. Ela tinha câncer. Recebi uma ligação do hospital onde ela havia sido levada às pressas. Aparentemente meu número antigo estava como seu contato de emergência. Foi uma surpresa já que eu não sabia que Antony havia dado meu número como emergência.
De alguma forma, eles conseguiram meu número atual. Não pensei duas vezes antes de largar tudo e ir a Boston. Quando cheguei, vi uma cena que me surpreendeu. Ela estava dez vezes mais magra, seu cabelo havia caído e eu chorei. Realmente chorei.
Era óbvio que ela me xingaria, me mandaria embora, me faria sentir culpada por tudo aquilo. Mas eu era em partes. Ela não tinha mais filho e nem marido para segurar sua mão ou lhe acompanhar no banho, ela não tinha nenhuma pessoa para fazer sua comida ou conversar. Eu precisava ser essa pessoa.
Ela não aceitou de imediato. Não deixava que eu a ajudasse a ir ao banheiro e nem respondia minhas perguntas. E quando falava, era pura e simplesmente para me culpar.
Eu aguentei tudo. Por ela. Por Antony. Por mim.
Uma semana depois ela recebeu alta com o diagnóstico: câncer no estômago. Já em metástase.
Aquilo era um pesadelo. Ela não teria chances. Ela mal viveria um mês.
Fiz de sua vida à minha. Jamais a abandonaria como fiz com Antony. Voltei com ela para casa mesmo com seus protestos e queixas. Ela não queria que eu a tocasse, não a deixava banhar, não comia da minha comida e nem deixava que eu tocasse em qualquer um dos retratos ali na sala.
Não desisti. Eu sabia que, sem mim, ela seria achada morta no meio da sala. Mas nada parecia amolecer seu coração. Por mais insistente que eu fosse, ou resiliente em muitos aspectos.
Resiliência.
Foi quando o inimaginável aconteceu. Um furacão que vinha acabando com várias cidades de países europeus, estava indo em direção à Boston. Precisávamos sair se quiséssemos alguma chance.
— Eu não vou largar minha casa com tudo dentro. Eu já enfrentei furacões!
Ela estava irredutível. Eu temia por nós duas, temia pelo tamanho daquele furacão.
— Se você não for, eu não vou. — Falei prontamente e vi a surpresa em seu olhar.
— Você só pode estar brincando.
— Não, Sra. Carter. Não posso deixá-la aqui sozinha.
— Se você acha que ficando aqui apaga o que você...
— Bridget, eu não vou sair daqui. Não importa o que diga ou o quanto reclame. Vamos passar por isso juntas.
A partir daí, ela não me xingava mais, embora não se dirigisse à mim. E eu resolvi reforçar a casa, comprei mantimentos e guardei no porão que eles tinham nos fundos da casa. Tudo indicava que não ficaria nada no local. Eu gostaria mesmo que ela fosse para o lugar mais seguro dali: o hospital universitário. Mas ela não iria.
Acompanhamos tudo pela TV. Cada cidade que o Furacão Jude devastava: Quincy, Lowell, Plymouth... E ele vinha diretamente para Boston. Foi quando vi o medo estampado em seu rosto. Ela segurou em minha mão e chorou.
Eu a abracei. Eu também estava com medo. E se eu morresse? Haveria tanta coisa para dizer para as pessoas ao redor. Meu pai, minha mãe, a patética da Patrice, Walker, Diana... Ike. Deus, eu gostaria de dizer que o amava. Mas não podia. Não deveria. Não havia perdão em meu coração.
Organizamos tudo, pegamos todos os porta-retratos e colocamos em uma caixa de papelão e levamos para o abrigo embaixo da terra. E esperamos.
O Furacão Jude ceifou 300 vidas. Nenhuma delas foi em Boston. E, certamente, não fomos atingidos. Pelo menos não da forma como eu esperava.
A casa foi parcialmente destruída, mas foi um alívio ver que todos estavam se ajudando. Todos os vizinhos haviam perdido algo. Então começamos a nos organizar para reconstruir tudo.
Fomos ao cemitério que também foi danificado, limpamos as lápides de Antony e do Sr. Carter. Bridget chorou quando viu a situação precária que o lugar havia ficado. E, juntas, resolvemos encarar aquilo como uma forma de nos reaproximarmos.
Então os dias não eram mais tão escuros e nem silenciosos, a comida de compartilhada e líamos juntos alguns dos seus livros favoritos. Estávamos lendo "E o vento levou..." quando ela disse:
— Eu sempre te culpei injustamente.
Aquilo foi como uma bomba. Eu não reagi.
— Você sempre foi bondosa com Antony. Eu só precisava de um bode expiatório.
— Eu tive culpa também...
— Ele era doente e todos nós sabíamos disso. Não foi a primeira vez que ele tentou... — Ela engoliu seco. — Você sabe.
Balancei a cabeça. Aquilo era dolorido de mais.
— Sei que não era fácil lidar com seus surtos. Você não teve culpa.
Senti o choro chegar de uma vez. Não me aguentei. E chorei. Chorei por todas as vezes que eu havia me sentido culpada. Era o maior peso que eu sentia saindo de minhas costas. Ela então me abraçou e falou aquelas três palavras que me libertaram:
— Eu te perdoo.
Seus últimos dias foi de muita dificuldade para comer. Ela já não conseguia engolir nada. Tivemos que ir para o hospital e ela ficou internada. Ela havia vivido mais do que eu mesma havia suposto.
Eu tinha medo de acordar no outro dia e ela ter partido. Eu tinha uma nova amiga. Sabia que isso aconteceria logo, mas não quis acreditar por um segundo.
Ela faleceu em 15 de outubro de 2020 às 5:29 da tarde no hospital do câncer de Boston. Finalmente havia descansado. No dia 16, velamos e sepultamos seu corpo ao lado do filho e marido. Sua pequena família estava reunida.
Então voltei para NYC. Tinha uma vida para levar.
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MORGANA (CONCLUÍDA)
RomanceSerá que um amor duraria uma vida? Morgana tivera a infância muito atordoada. Como seu pai era um diplomata, viveu boa parte da vida se mudando de país e tendo que fazer novas amizades sem ao menos saber a língua. Ao se mudar para Venezuela, Morgan...
