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Nos restantes dos dias, eu tive que colocar minha cabeça no lugar. Cheguei a mandar uma mensagem para Ike falando que a paciente daquele dia havia morrido em minhas mãos.
Ele lamentou, claro. Mas não me ligou novamente. Muito provavelmente por causa da turnê. Eu também não tive muito tempo para lamentar já que trabalhava direto, até fora do meu horário.
O olhar daquele homem não saía da minha cabeça. Eu mal conseguia dormir, ficava pensando em como deveria doer perder a esposa daquela forma. Sabia que precisava superar, que aquilo fazia mesmo parte da minha profissão.
E assim, mais quatro meses se passaram e já estávamos no Natal. O contrato da casa já havia acabado, mas acabei renovando por pura conveniência e preguiça de me mudar. Já estava até me apegando àquele banheiro, havia pedido para fazerem algumas reformas.
Contava nos dedos as vezes que Ike ligava ou mandava alguma mensagem. Mas a verdade seja dita: eu nunca ia atrás dele. Até que ele parou de falar de vez. Eu não me importei também.
Demorei para perceber que precisava de ajuda de um profissional. Aquela morte me acompanhou por meses a fio me dando insônia e, quando dormia, pesadelos.
Durante as terapias que tinha, percebi que tinha medo de perder tudo e acabava sabotando minha vida. Tudo isso por falta de raízes na infância. Então eu guardava tudo que podia. De fitas musicais, cartas, papéis, alianças... tudo. Eu guardava tudo.
Foi então que percebi que os Hanson tinham um papel fundamental nesse meu problema: adquiri isso após ir embora da Venezuela. E que ali foi só o início dos meus problemas.
Quando dei por mim, eu havia sabotado até aquilo. Até a volta de Ike em minha vida. Não nos falávamos há meses, eu não sabia de sua vida há tempos e eu mesma tinha-o afastado de mim.
Foi doloroso descobrir quem eu era pelos olhos de outra pessoa. Descobrir que não adiantava tentar salvar vidas para compensar uma vida que eu havia tirado, mesmo que indiretamente.
Quando saí do consultório da psicóloga naquele dia, eu precisei ter toda a força do mundo para não desistir das coisas que eu precisava fazer. A primeira delas, seria procurar os pais de Antony. Eu temia encontrá-los justamente por causa da culpa. Seu pai me culpava por tudo.
Comprei as passagens para Boston no intenso e rigoroso inverno de 2018.
Odiava andar de avião. Sempre acreditava que eu seria a escolhida da vez para morrer em uma tragédia, assim completava a tragédia de minha vida. E, durante as horas de voo para Boston, percebi que o avião caindo ou não, ninguém lamentaria minha morte. Não de verdade. Não teria ninguém como aquele marido chorando pela esposa.
Foi uma dor bem grande pensar daquela forma. Eu não falava mais com meus pais haviam muitos anos. Me arrependia bastante do que havia feito. Mas teria outro momento para me resolver com eles. Naquele momento eu precisava me resolver com os Carter.
Quando cheguei em Boston, me hospedei em um pequeno apartamento pelo AIRBNB mesmo e paguei apenas duas diárias. Não iria me demorar muito. Já estava um pouco tarde, então faria aquilo no outro dia. Minha vontade era ir logo e falar com eles. Mas eu nem sabia muito o que diria.
∞
— O que faz aqui?
Estava parada em frente à porta dos Carter e Bridget abriu sua porta.
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MORGANA (CONCLUÍDA)
RomanceSerá que um amor duraria uma vida? Morgana tivera a infância muito atordoada. Como seu pai era um diplomata, viveu boa parte da vida se mudando de país e tendo que fazer novas amizades sem ao menos saber a língua. Ao se mudar para Venezuela, Morgan...
