A tesoura de poda ainda estava fincada sobre o tampo do balcão de madeira gasta e escurecida pelo tempo e uso.
Yashalom apoiava a cabeça nas mãos, com os dedos afundados em seus cabelos negros, agora soltos, que escorriam como uma cascata por sobre seu rosto e ombros.
Não conseguia desviar o olhar daquela tesoura, que parecia ainda reverberar como na hora em que fora ali cravada com ódio.
A garota se lamentava e amargava o fel do remorso.
Novamente aquele sentimento pavoroso tomara conta dela e, por pouco, ela não feriu justamente aquele que tanto a tem auxiliado em seus estudos.
O momento em que aquela raiva despertava até lhe trazia prazer, algo como se vivesse em um mundo surreal, em que ela fosse capaz de qualquer coisa e não precisasse temer nenhuma consequência.
Era serpenteoso, lascivo, brotava repentinamente em suas entranhas e, em milésimos de segundos, se espalhava por todo o seu corpo, inundava sua mente e explodia em seus membros.
Por isso, talvez, suas reações tão rápidas, instintivas, como se fosse um animal selvagem pronto para o ataque.
Mas essa repentina onda de raiva e poder passava tão rápido quanto surgia, e quando a sua mente se desanuviava, ela percebia o mal que havia feito.
Mesmo que aquela explosão de raiva trouxesse prazer no momento, quando a razão retornava à sua consciência, a sensação era extremamente amarga, desagradável, dolorosa.
O pior de tudo é que aquelas explosões se desencadeavam por muito pouco, por quase nada.
Das vezes em que isso aconteceu, apenas a brutalidade contra a gata e seus filhotes foi motivo suficiente, mas a provocação de Kátia e o jeito autoritário de Wojtyla, não.
E com Wojtyla muito menos ainda! Ele era um chato, arrogante e prepotente, embora fizesse um notável esforço para ser gentil e complacente.
Era apenas um defeito de personalidade.
Não se podia exigir que todos fossem doces e gentis.
Mesmo tendo um defeito tão irritante, não era motivo para destratá-lo e quase machucá-lo, como quase aconteceu.
Yashalom deixou escapar um soluço, embora fizesse enorme esforço para não chorar.
Essas mudanças bruscas de humor, suas emoções flutuantes e instáveis, estavam sendo muito cansativas.
Num instante estava alegre e satisfeita, no seguinte, por causa de um nada, despertava uma fúria gratuita.
Vacilante, pegou a tesoura e fez força para desencravá-la da mesa, guardando-a em seguida na gaveta do próprio balcão, como se escondesse a arma de um crime – o que, de fato, quase se tornou.
Ela precisava se desculpar com Wojtyla e tentar consertar o erro que cometeu.
Por causa de sua fúria inconsequente, poderia complicar muito a ela e ao Tutor também.
Fora injusta em acusá-lo de ter culpa nas provocações de Kátia.
Ele era tão vítima quanto ela, talvez um pouco mais: vítima da inveja e do ciúme de alguns colegas da escola.
Guardou tudo rapidamente e correu para a saleta dos funcionários, para se arrumar e sair, crendo que conseguiria falar com Wojtyla ainda naquele dia, mas lembrou-se, logo que entrou e abriu o armário, que ela não sabia onde ficava a casa dele e nem tinha mais os números do telefone da residência e do celular: ela os jogou fora assim que ele lhe passou, achando que aquilo era uma forma de obrigá-la a dar-lhe satisfações.
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Hybrida - Asas Negras
Romance💥 História Completa e Finalizada 💥 Um ser híbrido extraplanar vive o despertar de suas faculdades especiais sem saber do que se trata ou de quem ele é, tornando-se uma vítima inocente daqueles que buscam vingança contra o pai que sequer conhece. A...
