Cap. 10 - Arrependimento

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A tesoura de poda ainda estava fincada sobre o tampo do balcão de madeira gasta e escurecida pelo tempo e uso.

Yashalom apoiava a cabeça nas mãos, com os dedos afundados em seus cabelos negros, agora soltos, que escorriam como uma cascata por sobre seu rosto e ombros.

Não conseguia desviar o olhar daquela tesoura, que parecia ainda reverberar como na hora em que fora ali cravada com ódio.

A garota se lamentava e amargava o fel do remorso.

Novamente aquele sentimento pavoroso tomara conta dela e, por pouco, ela não feriu justamente aquele que tanto a tem auxiliado em seus estudos.

O momento em que aquela raiva despertava até lhe trazia prazer, algo como se vivesse em um mundo surreal, em que ela fosse capaz de qualquer  coisa e não precisasse temer nenhuma consequência.

Era serpenteoso, lascivo, brotava repentinamente em suas entranhas e, em milésimos de segundos, se espalhava por todo o seu corpo, inundava sua mente e explodia em seus membros.

Por isso, talvez, suas reações tão rápidas, instintivas, como se fosse um animal selvagem pronto para o ataque.

Mas essa repentina onda de raiva e poder passava tão rápido quanto surgia, e quando a sua mente se desanuviava, ela percebia o mal que havia feito.

Mesmo que aquela explosão de raiva trouxesse prazer no momento, quando a razão retornava à sua consciência, a sensação era extremamente amarga, desagradável, dolorosa.

O pior de tudo é que aquelas explosões se desencadeavam por muito pouco, por quase nada.

Das vezes em que isso aconteceu, apenas a brutalidade contra a gata e seus filhotes foi motivo suficiente, mas a provocação de Kátia e o jeito autoritário de Wojtyla, não.

E com Wojtyla muito menos ainda! Ele era um chato, arrogante e prepotente, embora fizesse um notável esforço para ser gentil e complacente.

Era apenas um defeito de personalidade.

Não se podia exigir que todos fossem doces e gentis.

Mesmo tendo um defeito tão irritante, não era motivo para destratá-lo e quase machucá-lo, como quase aconteceu.

Yashalom deixou escapar um soluço, embora fizesse enorme esforço para não chorar.

Essas mudanças bruscas de humor, suas emoções flutuantes e instáveis, estavam sendo muito cansativas.

Num instante estava alegre e satisfeita, no seguinte, por causa de um nada, despertava uma fúria gratuita.

Vacilante, pegou a tesoura e fez força para desencravá-la da mesa, guardando-a em seguida na gaveta do próprio balcão, como se escondesse a arma de um crime – o que, de fato, quase se tornou.

Ela precisava se desculpar com Wojtyla e tentar consertar o erro que cometeu.

Por causa de sua fúria inconsequente, poderia complicar muito a ela e ao Tutor também.

Fora injusta em acusá-lo de ter culpa nas provocações de Kátia.

Ele era tão vítima quanto ela, talvez um pouco mais: vítima da inveja e do ciúme de alguns colegas da escola.

Guardou tudo rapidamente e correu para a saleta dos funcionários, para se arrumar e sair, crendo que conseguiria falar com Wojtyla ainda naquele dia, mas lembrou-se, logo que entrou e abriu o armário, que ela não sabia onde ficava a casa dele e nem tinha mais os números do telefone da residência e do celular: ela os jogou fora assim que ele lhe passou, achando que aquilo era uma forma de obrigá-la a dar-lhe satisfações.

Hybrida - Asas NegrasOnde histórias criam vida. Descubra agora