Cap. 05 - Desconfianças

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A mata exuberante forrava todo o cenário.

As árvores milenares deitavam suas copas e cipós sobre o rio que corria da cachoeira.

As pedras espalhadas eram torneadas, recobertas por grossa camada de musgo onde a água não alcançava.

De uma enorme rocha, que há muito tempo havia despencado da montanha e se aninhado no ponto aonde não podia mais rolar, cresciam e se esparramavam longas folhas de samambaias como fossem longuíssimos cabelos verdes.

A luz que rompia a barreira das árvores altas cintilava como estrelas nas águas e folhas, e por vezes a cachoeira parecia derramar pura luz.

Os brilhos se difundiam em profusão pelas copas sempre farfalhantes.

A água esmeraldina do rio insidia nas cores dos outros elementos e tudo parecia transpirar verdor.

Em cada margem do rio havia um Daemon semi-oculto pelas sombras e luz esverdeada.

O da margem esquerda era Zach, sempre em seu porte altivo, com os braços cruzados sobre o peito e olhar frio; encarava com severidade o da margem direita, Karol.

Suas longas vestes e cabelos bailavam lentamente com o vento intermitente que também fazia espalhar centelhas de água quase vaporosa.

Karol não possuía mais o porte tão altivo como Zach, mas nem por isso deixava de ter a sua dignidade.

Seus cabelos brancos e olhos de um azul claríssimo denunciavam sua origem nórdica.

O basto cabelo era recortado em camadas e descia até os cotovelos. Suas vestes também se diferenciavam das de Zach: eram bastante simples, compostas de calças e túnica largas e claras sob um balandrau sem mangas, em tecido natural.

O nível de poder do Daemon nórdico era inferior ao de Zach, principalmente nas condições de subexistência a que estava limitado, mas ainda assim era muito mais forte que a maioria dos Seres Místicos.

Ele servia a Zach, pois graças ao Guardião ele podia animar seu real corpo físico - mantido em estado de hibernação, sob suspensão vital - quando estava no Plano Místico através do Desdobramento Astral.

Porém, Zach não gozava do privilégio da confiança incondicional.

De alguma forma o seu segredo veio à tona e estava sendo espalhado entre criaturas vis.

Apenas três homens conheciam esse segredo e um deles estava morto há dezesseis anos:

Imăm, ex-Guardião das Terras do Norte.

Sempre em seu jeito contido, a voz mansa e baixa, Zach mantinha total controle sobre seus sentimentos, embora o assunto referente à sua criança estivesse pondo sob provação esse controle.

O olhar era instigante, daqueles que parecem sondar a alma alheia, e Karol conhecia o suficiente do Guardião das Terras do Sul para saber que aquilo era um sinal de perigo, embora não compreendesse o porquê daquele espírito ofensivo.

Preferiu não dar importância àquele fato e não vacilar por conta de seus receios, afinal ele tinha a mais absoluta certeza de não ter cometido nenhum deslize que merecesse a reprimenda do Guardião.

-- Saudações, Zach! Tenho algumas notícias a lhe dar. Após três anos de investigação, finalmente chegou a hora de nos aproximarmos da sua criança. Grian de Réquiem e eu teremos de estar próximos agora... Aconteceu o que temíamos.

-- Isso somente seria necessário se ela mostrasse sinais de estar desenvolvendo a Força...

-- Obviamente... sendo um ser híbrido, não sabemos como se dará o desenvolvimento da Força, mas posso lhe assegurar que a possibilidade da criança não desenvolver absolutamente nenhuma faculdade psíquica é nula. Eu senti o despertar dela. - Vendo a consternação no rosto do Guardião, Karol tenta abrandar a sua má notícia. -- Talvez seja uma providência que a criança só agora comece a despertar a Força. Seria realmente trágico se tivesse ocorrido há sete anos, como ocorre conosco na pré-adolescência.

Hybrida - Asas NegrasOnde histórias criam vida. Descubra agora